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Finados… finalmente mortos!?

“Há tanta gente morrendo a cada dia, sem partir.
Esta saudade do tamanho do infinito caindo sobre nós.
Esta lembrança dos que já foram para a eternidade.
Meu Deus!
Que ausência tão cheia de presença!
Que morte tão cheia de esperança e de vida!”

– Padre Juca –

Dia de Finados… mais um de nossos feriados cristãos. Esse tem por objetivo celebrar, em missa e voz, os amigos-irmãos que já partiram do nosso cotidiano.

Particularmente, um dia como outro qualquer, mas que insere em si uma alforria social para que possamos chorar, relembrar e reviver nossos “mortos”. Sim, mortos entre aspas, muitas aspas nessa palavra, por sinal. Afinal, quantos de nós não conhecem um, dois ou meia dúzia de zumbis que ainda nos circundam?

A palavra “mortos” entre aspas, neste texto, também é usada pela memória, pela lembrança que nos mantém vivos nos corações daqueles que tocamos em vida. Juro para vocês que eu conheço “gente morta” muito mais viva do que alguns “vivos”. Ainda há pouco, li um trecho de desabafo em que uma alma querida se dizia feliz, porque amanhã poderá se lembrar de um ente amado em voz alta… seja para lamentar os abraços não mais possíveis aos nossos olhos, seja para rememorar os feitos da pessoa que se foi, seu abrigo, seu amor… Confesso que o desabafo me doeu.

Sim, também trago minhas lembranças… boas e más, pois são parte do que os “mortos”, que me tocaram, deixaram em mim. Não, você não entendeu errado: eu tenho lembranças ruins de alguns “mortos”, sim! Jamais consegui entender essa coisa de fazer de um morto uma espécie de santo. Fulano era um traste, em vida todos reclamavam dele, viviam cobrando posturas diferentes e blá-blá-blás cotidianos, até que “bateu as botas” e instantaneamente se tornou o ser mais amado e angelical da família. Não cola, não cabe, não vira. Hipocrisia deveria ser proibida por lei no campo das emoções, mas isso já é outro papo.

Deixando de lado a beatificação dos simples mortais como nós, sigo  aguardando o dia dos vivos. É isso mesmo: dia dos vivos! Claro que não me refiro aos tais zumbis, que se alienaram dentro da rotina trabalhadora-consumista dos dias, mas dos vivos de verdade. Esses, que ainda se lembram de incentivar, sorrir, cumprimentar, olhar nos olhos, enfim… que se recordam dos seus vivos. Espero ansiosamente o dia em que as pessoas hão de se programar para serem mais afáveis com o seu entorno, com o coleguinha ao lado e mais, muito mais, com aqueles que lhes aturam no dia a dia. Não somos santos! Nenhum de nós é e estamos tranquilos com isso… logo, para que aguardar o Dia de Finados para cuidar, chorar, lembrar, dizer que se ama muito alguém? É preciso mesmo esperar essa ausência constante para valorizar o outro em voz alta?

Que tal orarmos, dizer que amamos e o quanto estimamos nossos amigos-entes-irmãos hoje, também? Que tal festejarmos e cultuarmos nosso abrigo possível? Fazer jus à vida, dando um abraço mais demorado naquele irmão chato [mas que você não consegue se imaginar sem], beijar as mãos de seus pais até se cansar, mostrar que ama quem você ama? Que tal celebrar com o padeiro, que te dá “o pão de cada dia”, o BOM DIA que vocês terão? Que tal chorar de emoção e saudade antecipada, ao abraçar carinhosamente seu pai, sua mãe, seu filho-tio-sobrinho-cônjuge-afilhado-amigo?

Gostaria que esse Dia de Finados fosse comemorado com alegria. Aquela genuína, forte, vibrante… que contagiasse a todos a nossa volta. Gostaria de ver pessoas com sorrisos de gratidão estampados no rosto, por terem tido a bênção de conviver com aqueles que partiram. Que fosse uma data regada a lágrimas de saudade e carinho por todos os que foram e ainda são muito vivos em nós… mas também pelos que aqui estão, tornando nossa jornada cotidiana uma caminhada de aprendizado, afeto, tolerância e evolução.

Podem dizer que o dia é de Finados, mas eu convido você, que me lê, a dançar o ritmo do afeto entre seus vivos, abençoando com sua atitude humana, educada e sensível a todos os seus “mortos”. Fica o convite, caro leitor, para celebrarmos em grande estilo a chuva, a renovação, a semente, a emoção e a vida… sua, minha e de quem vier.

Amor e outras Drogas

Com a proximidade do dia dos namorados, é quase impossível para uma apaixonada convicta não questionar temas como amor e relacionamentos em geral.

Esta semana, em voga, namorados de aluguel, solteiros se juntando para comemorar juntos o tal dia e um texto delicioso questionando a importância de se ter um namorado nessa data, já que no dia do índio não comemoramos com um índio ao lado, nem passamos o dia da árvore abraçados com uma… faz sentido!

Enfim… engrossando a fila dos que falam do assunto, cá estou.

É sabido que sou favorável a paixões incandescentes; sou dessas que não dispensam um coração acelerado, uma boa história cheia de senãos e poréns, dessas mulheres que, apesar de qualquer coisa, acreditam muitíssimo nos romances, nos amores, nos relacionamentos… Porém, é fato que, cada dia mais, estou convencida de que atualmente o amor é utilizado como qualquer outra droga disponível no mercado (lícito ou negro).

Na prática, funciona como qualquer vício, basta perceber: no começo, a gente conhece a pessoa e vai curtindo, aos poucos, de leve… sorrisos, leveza, afinidades, diferenças: tudo parece tão providencialmente encaixado…

Você fica com a criatura por duas horas, pensa nela por 5 minutos e esquece por 3 horas ou até a próxima ligação sem grandes ansiedades, tudo muito natural e tranquilo… Porém, basta uma certa constância, encontros, mais daquele bem-estar e… você agora olha para o telefone e se pergunta por que ele ainda não tocou, fica ansiosa até ver aquela mensagem… nossa! O coração acelera, um sorriso enorme ilumina o rosto e podem até xingar, que nada te tira a alegria, pois você está levemente anestesiada.

Nesse estágio, você pensa na pessoa por 3 horas e esquece por 5 minutos… O tempo passa, vocês se entendem, se desentendem e o relacionamento parece ser parte de você desde sempre… Agora, você nem percebe, mas já abre mão de várias coisas que julgava imprescindíveis para que a relação seja boa para os dois e não haja conflitos.

Um lindo dia, algo dá errado, vocês se desentendem seriamente e não mais podem estar juntos. Pronto! Inicia-se o seu inferno astral, fora de aniversário. Seu mundo cai, você se desconhece, já não se lembra do que curtia fazer quando a pessoa não existia. Parece que vai morrer asfixiada só de pensar que a pessoa nunca mais voltará, daria facilmente 2 minutos de vida para tê-la ao lado, para que tudo voltasse a estar bem e em paz e vocês se amassem em perfeita sintonia.

A sensação é de morte em plena vida: a alegria dá lugar a um desespero tal que saídas como reza forte, bebedeiras e remédios para dormir são sempre muito comuns, além, é claro, de um ou outro eventual ouvido amigo… Deprimido e triste, você não pensa em mais nada além da outra pessoa e da falta que ela faz.

Quem já terminou um relacionamento em que estivesse muitíssimo apaixonado sabe do que estou falando. A descrição é idêntica ao uso (e falta) de
drogas viciantes… Penso que, talvez por isso, por toda a química envolvida no processo de “amar”, as pessoas estejam tão mais rapidinhas nas trocas de parceiros, afinal, deve ser mais interessante trocar rápido de vício (ou usar outro paralelo) a investir no que já se tem.

Não importa, afinal, é apenas uma reflexão…

Porque amor é vício, desamor é precipício e somos todos seres viciantes… Humanamente viciadinhos nessa deliciosa arte que é amar.

Gente ou cachorro vira-lata?

Em tempos de correria, redes sociais, informações excessivas, mentiras excessivas e, ao que me parece, excessivo desamor também, um questionamento anda frequentando meu lounge particular com grande frequência: estamos nos acostumando a viver nossa sexualidade como bichinhos primitivos e deixando a seleção e os sentimentos em segundo plano?

Nem pensem que venho aqui comentar sobre o desamor romântico. Apesar de acreditar que esse também anda escasso, venho comentar dos amores simples, dos autoamores e até dos “amores sexuais” (se é que isso existe).

Anda me chamando a atenção a rapidez com que a raça humana troca de parceiros sexuais ou amorosos, isso quando chega a trocar, porque, ultimamente, o que mais se vê é uma nova versão de Sodoma e Gomorra, em que todos usufruem de parceiros variados ao mesmo tempo.

Ao contrário do que possa parecer, não estou aqui para levantar a bandeira da “pseudo – moralidade” e sim, manifestar uma curiosidade quase sociológica, já que conheço montes de pessoas de ambos os sexos que dizem querer um relacionamento “convencional” com valores como fidelidade, amor, cumplicidade e companheirismo, mas, no entanto, muitas dessas mesmas pessoas fazem parte de triângulos, quartetos ou octógonos “amorosos”.

Alguns curtem aos montes as casas de suíngue ou suas similares, outros não são favoráveis, mas vivem romances tórridos iniciados normalmente virtualmente, mas, numa questão de oportunidade pulam para a vida real, para dar um “quê de paixão” aos dias. Pergunto-me onde vão parar nessas horas a tal fidelidade, a cumplicidade, o companheirismo e blá, blá, blá…

Sexo é bom e todo mundo gosta. Fato. Então é isso? Essa e a tal “liberdade” são as justificativas para que nós, seres humanos, em tese pensantes, estejamos tendo uma vida sexual cada vez mais parecida com a de qualquer cachorro vira-lata, instintivo, que transita por aí?

Nenhum tipo de conceito antiquado do tipo “meu corpo é meu templo” ou coisa que o valha… Vamos acumulando o máximo possível de parceiros por aí, afinal, “sexo é vida” e “amor vem depois”, e vai saber se o tal amor não é, no fim das contas, uma espécie de utopia…

Geração saúde, cuida do que come, não fuma, bebe moderadamente ou não bebe, malha religiosamente, cuida da beleza como se fosse um Deus, mas, quando o assunto é sexo, pode tudo: quanto mais gente, melhor?

Gente faz isso? Gente que pensa e é capaz de sentir algo a mais que a puxação de ferro da academia age assim?? É o tempo da liberação, da rapidez, da falta de caretice, da “libertação”. Libertação ou falta de seleção/critério?

Particularmente, penso que uma das muitas possibilidades é que nossa modernidade esteja usando sexo como fuga, como anestésico ilusório contra a imensa solidão que, no fim das contas, certamente habita não apenas os cachorros vira-latas, mas também os humanos que como eles se comportam…

Mas isso, meus caros, é apenas uma das minhas muitas reflexões…

Diferenças versus Semelhanças

Dias desses, me peguei impaciente, completamente intolerante às diferenças brutais. A impaciência era tanta que simplesmente deletei montes de leituras “desnecessárias”, conversas “vazias”, pessoas de “superfície”, inutilidades segundo o meu olhar (impaciente e arrogante).

Acontece que, por aqui, pouca coisa se faz sem trazer consigo uma reflexão, um olhar mais apurado. Resolvi conversar com meu espelho sobre as atitudes tomadas, sobre os sentimentos de impaciência e irritação que me adentravam. Percebi que ando selecionando com muito mais rigor pessoas cujas ideias, ainda que não pareçam em nada com as minhas, ao menos me encantem, me despertem. Ando me revoltando de forma quase perigosa com os “casuais”, “superficiais” e excessivamente “alegrinhos constantes”. Ando conscientemente procurando semelhanças e descartando diferenças.

Normal? Pode até ser, mas certamente nada saudável. Num tempo em que a diversidade está em voga, as diferenças são excessivamente enaltecidas, a mesmice vulgar me causa um cansaço absurdo, mas é uma bobagem ignorá-la, afinal, é o mundo real… É a rotação atual… Divergir, obrigar-se a tolerar, conviver, ler e ouvir é necessário… Será?

Eu me incomodei tanto com a minha atitude “separatista” que resolvi rever meus conceitos. É óbvio que não voltarei atrás na decisão de manter uma distância segura daquilo com que não concordo em absoluto e que nada me agrega. Por outro lado, apesar de não trazer para o meu cotidiano a superficial realidade, optei por trocar meu olhar… Percebi que também eu sou bem digna de rótulos desfavoráveis quando vista com olhares críticos e julgadores – também sou digna de “diferenças” que me tornam “deletável”.

Descendo do meu alto posto narcísico, vi-me como igual dos meus “diferentes”, percebi que, graças as nossas diferenças, construímos nossos valores, preferências, conteúdos… Fazemos história!! Num segundo olhar, cheguei a ficar grata aos diferentes e superficiais, porque me obrigam, para poder coexistir, a me reescrever, a me reinventar e até a relaxar um pouco mais, haja visto que a vida não é, também, uma séria profundidade a todo o tempo.

Independente de quaisquer coisas, somos mundanos, estamos vivos, precisamos do superficial para alavancar certas criações, para nos ajudar a levar a existência com mais leveza, com mais sossego, com mais tolerância.

O crivo que me aperta o peito limita, eventualmente, o meu olhar. E, apesar de ser um fato inquestionável que as semelhanças me atraem como mel para abelhas, fiquei mais em paz ao conseguir ampliar meus horizontes e acolher também as diferenças como forma valiosa de crescimento e existência.

E você, anda com os horizontes abertos para degustar diferenças ou ainda está, como eu, apegado às parcas semelhanças??

Vamos juntos, descobrir e, na medida do possível, aprender com as diferenças?

Uma Vida Inventada

“Existe uma forma nebulosa de viver

entre sonho e realidade,

que depois quase todos

perdemos.

(Exceto os artistas e os loucos).”

– Lya Luft –

Estes tempos incertos andaram corroendo, silenciosamente, minha calma, minha alma e minha paz. Lá fora, a vida virou zona. A “sociedade” generalizou e abriu o verbo: “Mulheres são culpadas! Pedem para serem estupradas”. Virou notícia e, dolorosamente, virou piada.

A Copa [do Mundo, segundo dizem] é notícia séria, alardeada. Nada sei sobre o assunto, além do fato de que – acontecer no Brasil – tornou minha existência muito mais cara. Enquanto isso, canonizam Jesuítas [precisamos, urgentemente, de milagres!]. Grandes atores conquistam o passe livre para falecer. Guerras pipocam, crianças assaltam e matam, pessoas somem e tudo, absolutamente TUDO, parece ser banal.

A vida vai escorrendo pelos dias, enquanto fingimos que dores são sentidas e, num piscar de olhos, abstraídas. O mundo não para!! Se a gente parar por tristeza, dor, doença ou covardia, o mundo atropela. Experimente dizer, numa roda de adultos, que você simplesmente não quer saber das cobranças de tempo e dinheiro… Vai ser apedrejado! Imediatamente rotulado de alienado, louco, comodista ou derrotado. Triste.

Legal é ser descolado, fazer da [sua?] vida, uma espécie de novela. Trabalhar sempre demais, ter um carro bacana, um status qualquer que seja invejado e almejado pelos coleguinhas, um estresse de estimação, beber um tanto pra esquecer ou “relaxar”, esconder as bolinhas que toma “pra não pirar”, viajar, sair, festejar tudo o tempo todo. Juro que, só de pensar nisso, já fico estafada.

No meio disso tudo, amargo bola nas costas, vislumbro deuses de carne, osso e sorrisos minuciosamente talhados pela máscara da fantasia.

Nesse solitário brinquedo de existir, alternamos trabalho duro com euforia cintilante.

Vamos trocando interpretações próprias por citações aos montes. Fast-food, papagaios, balas, bombas, barulho, balbúrdia, amores de ocasião. Lutamos alegres, sem tempo pra viver. Sorriso estampado, enquanto o outro sangra, sente fome, mas tira foto. Tudo escondido nas entrelinhas das fatalidades e dos acasos.

Indagar é um desafio permanente. Encontrar tempo pra SER também é.

Desafio do Espelho

“… enfim, sei quem eu era,
quando me levantei hoje de manhã,
mas acho que já me transformei
várias vezes desde então.”

– Lewis Carroll –

Desafio do Espelho

…são três da manhã, de uma sexta-feira qualquer. Lágrimas correm soltas por meu rosto e, assim como Alice, sinto raiva por essa água que transborda, construindo rios que hão de me afogar. Afogar… lembro-me vagamente, de Alice resmungando que não tinha visto quem tivesse conquistado algo com lágrimas.

Aprendi com Alice que chorar é “coisa de menininha mimada” e que, chorar por muito tempo, é uma espécie de válvula de escape dos pseudo-fracassados. Ah… aprendi tantas amarras de culpa, pela vida afora…

Então, depois de percorrer tantos caminhos diferentes e sorver o melhor e o pior de cada um deles, vejo que pertenço à intensidade um tanto insana dos sonhadores: os que acreditam em “caminho linear e correto”, que anseiam por serem aceitos como são, fazer parte e ser útil a alguma tribo, pessoa, empresa, sociedade ou qualquer “coisa viva” (notou a pegadinha?), além de si mesmos. Algo de fora justificando uma existência que, por si só, parece pouco.

Temos sede do que não entendemos, criamos julgamentos para os outros, de forma a nos manter como bons, superiores e corretos (somos todos, guerreiros da vida, poderosos em nossos tronos de apontar dedos acusadores). Rebeldes, idealistas, fracassados ou (a preferida de muita gente “boa”) loucos! Só pensar nisso já cansa, dá um tédio tremendo de quem deixa seus pedaços pelo caminho e arrota superioridade, no rosto de quem ainda está experimentando caminhos.

Ainda ontem, alguém afirmou que eu não sei quem sou. Sorri e dei de ombros. E quem sabe quem sou eu, além de mim? Para cada amigo, parente, parceiro ou passante, haverá, sem sombra de dúvida, uma resposta diferente. Eu, você, a vovozinha da esquina… somos todos colchas de retalhos, muitos abrigados no mesmo corpo, à mercê das energias. Internas e externas, mas isso é conversa para outro texto.

Ao levantar os olhos, descubro que já passam das quatro, as águas que me afogam cansaram de cair. Percebo que me alonguei em divagações e que meus espelhos são muitos… A maioria já quebrou muitas vezes, deixando em mim essa sensação de cacos (ou caos). Despeço-me do texto e da minha escuridão. Vou ali, para o conforto conhecido da colcha de retalhos que ainda segue em construção, enquanto a menina Alice ainda ecoa, no fundo do pensamento, a pergunta:

– Seu espelho te conta quem é você?

Adultério

– Ser feliz ou viver apaixonado? –

“Minha tristeza se tornou rotina,
ninguém percebe mais (…)
Estou substituindo minha falta de alegria
por uma coisa mais concreta,
um homem.”

– Trecho do livro ‘Adultério’, de Paulo Coelho –

Adultério. É esse o tema do mais recente livro de Paulo Coelho e, antes que você imagine que vim escrever resenhas, divulgar o autor mais lido do país ou coisa do gênero, enganou-se. O Google, a mídia e três milhões de outros blogueiros já fizeram isso. A ideia aqui é simplesmente traçar correlatos e, principalmente, esvaziar o tanto de conceitos que ficou em minha caixola depois de ler o livro. Penso tratar-se de um assunto tão tabu quanto cotidiano, mas o que realmente me puxou para esta leitura foi o tema coadjuvante: depressão.

O título já entrega o teor da estória, narrada pela personagem principal, uma mulher de 30 anos, jornalista, casada com um marido amoroso e bem-sucedido, e com filhos, aparentemente todos felizes e sorridentes, prontos a posar para capas de revistas da vida perfeita. No entanto, Linda (a protagonista), em algum momento, passa a sentir-se vazia e triste com seu cotidiano. Tudo começa quando, ao fazer uma entrevista, o entrevistado lhe diz que “não tem o menor interesse em ser feliz, pois prefere viver apaixonado, mesmo sabendo que é um perigo, já que a paixão insere milhões de incertezas”. A narrativa segue mostrando o quanto questionar-se pode alavancar abismos – foi aí que eu precisei seguir leitura.

Ao contagiar-se com a ideia e energia do tal entrevistado, Linda não encontra mais paz nos seus dias e, apesar de saber-se bem casada e tendo a vida que tantos pensam em construir, abre-se nela uma insatisfação não direcionada. Com as noites cada vez mais mal dormidas, passa a indagar-se sobre uma possível depressão. A simples ideia a apavora, pois de alguma forma ela pensava que uma amiga que havia tido “a doença”, e só melhorado com ajuda de remédios, era quase um ser diferenciado por isso.

Particularmente, amei o Paulo por ter abordado o assunto exatamente como é, sem exageros ou diminutivos desnecessários e, três vezes mais quando, um pouco à frente na estória, Linda reencontra um antigo namorado de colégio e, numa espécie de impulso inconsciente, parece reapaixonar-se pelo moço, político de sucesso e também casado. A partir daí, a estória se desenrola num universo muito comum, o que, aos meus olhos, torna tudo mais interessante. Linda, ainda morrendo de medo de estar “depressiva”, procura todo tipo de possibilidade alternativa como motivo para seu vazio existencial. Tudo para não procurar ajuda psiquiátrica. Imagine se ela, sempre tão correta, estaria agora desequilibrada!!??

O tal reencontro não tem o desfecho que Linda espera, o que lhe dá um arranhão na vaidade, e transforma a própria vida em uma espiral. É quando percebo que Linda não faz nada diferente do que vemos todo o tempo na vida real, dispersando nossas questões existenciais no outro. Escolhendo um “outro” como alvo para ativar nossa endorfina ou tão somente preencher um espaço nosso, interno. Possível? Improvável…

Segue-se uma série de acontecimentos e diálogos – alguns, tão fantasiosos quanto bonitos – acerca de ciúme, traição e casamento aberto. Uma leitura rápida, que suscitou em mim dragões adormecidos, de valores, posturas pessoais e ao mesmo tempo um déjà vu, uma sensação espaçosa de que, no fim das contas e cada vez mais claramente, tratamos pessoas como “remédios” para nossas dores. Procurando no instinto primitivo – vulgo, tesão de momento –  uma distração, um anestésico, uma fuga…melhor perdermo-nos no outro, ou nos sentimentos alterados que nos despertam, do que buscar, no autoconhecimento, razão e amortecimento para nossas insatisfações.

Ao fim do livro, nenhuma surpresa incrível nos aguarda. É quase previsível, mas vou salientar que, independente de gostar ou não do autor, a estória perpassa assuntos, vivências e pensamentos muito próximos a todos nós, de um jeito ou de outro…

Teimosia, lealdade e solidão

“Lealdade é esclarecer as dificuldades e as rugas.
É uma exposição gradual das  diferenças
que geram as semelhanças.”

– Fabrício Carpinejar –

Tudo começou quando minhas roupas não couberam naquele armário pequeno. Natural, além de mulher, sou espaçosa e exagerada de nascença. Quase uma redundância. Lembro que passei a manhã inteira me remoendo em muxoxos e reclamações inaudíveis.  Antecipei discórdias, DR e o início da separação. Aqui na terra, andam escassas pessoas que queiram abrir mão de seus espaços para dividir. Generosidade é palavra perigando extinção. Até que ele chegou e, ao saber do motivo do mau humor que reinava, deu risada e me desarmou completamente.

Abriu seu lado do armário diminuto, mostrou que só precisava ocupar 1/3 do espaço e que seria uma alegria deixar o restante para que eu ajeitasse meus pertences. Juro que olhei para ele como quem via um fantasma. Além de abrir as portas da casa, do carro e da vida para eu entrar, ainda abria mão de seus espaços internos com uma risada de criança? Quase impossível de acreditar! Com olhar de estranheza e desconfiança, perguntei se tinha certeza, se não o incomodaria… Disse que não, que seria uma alegria abrir a porta todo dia e perceber que minhas coisas estavam ali…era sua certeza de que eu retornaria, ainda estaria lá ao fim do dia, da viagem ou na manhã seguinte.

Confesso: depois de anos solitários, fazendo uso de armários abarrotados de quinquilharias e roupas de tamanhos diversos, e algumas tentativas frustadas de fusão com seres tão egoístas quanto eu, acreditar naquela disposição em ter seu território invadido era como crer no Papai Noel e no Coelho da Páscoa chegando juntos em pleno abril. Entre duendes e gnomos que pareciam se enfronhar na minha realidade naquele momento, tive um vislumbre do que é lealdade no relacionamento. Sim, eu sei que você vai dizer que estou iludida, apaixonada ou qualquer outro rótulo que antecipe a minha derrocada de encantamento… pode ser que você esteja certo e que amanhã eu acorde do sonho, na quietude solitária do meu mundo. Não importa. Por um punhado de tempo, o inesperado tomou conta da realidade e parece que a lealdade ainda existe solta e perdida por aí.

Ser leal reflete aquilo que você é para si, quando se olha no espelho da consciência. É o que você faz consigo na vida privada, é honrar dentro de casa o que você alardeia como valor seu. Diferente de fidelidade, que é honrar o compromisso com o mundo lá fora, trabalho, amigos, a lealdade é expor ao outro o que você sente, como pensa e o que vê. Ser leal é quase uma teimosia para manter aquilo que se acredita, é se expressar de toda forma possível para não se desacreditar. É tentar um pouco mais, de formas diferentes, para não antecipar o término do compromisso, da relação… Carpinejar já cantou essa bola: “Sem lealdade, o amor cansa, estanca, não cresce.”

Convenhamos, estar junto no dia a dia é um exercício de tolerância, é um aprendizado constante. Não interessa se é com a mãe, o namorado, a esposa, o coleguinha diário do trabalho ou o irmão: conviver exige perseverança, treino de empatia e autoconhecimento. Quem não se conhece não sabe o que mostrar ao outro, perde-se entre espelhos e corre o risco de viver como macaco, pulando de galho em galho, na crença de que são as árvores que constituem problemas de encaixe, nunca você. Quando enxergamos nossos defeitos, chatices e complicações, tendemos a ficar mais dóceis com o outro e suas tralhas internas. É um exercício… mas, se você vai para a academia malhar o corpo, por que não se permitir treinar afetos e aceitações? Ok, ok…eu sei que não é simples abrir a porta de nosso armário e convidar a dividir.

Nesse aprendizado recente de generosidade, divido com você a minha preferência a andar acompanhada por uma estrada real, ainda que nem tudo sejam flores e perfumes todo o tempo, a viver sozinha na minha idealização.

Cotidiano e Dicotomia

“se a tua fome for feito a minha
de palavras e (in)quietudes
faz como eu então
bebe os silêncios
em goles profundos
e o verso: rumina lentamente”

– Nydia Bonetti

Um costumava ser luz, vibrante, exagerado, pura galhardia. O outro, fechado, sombrio, silencioso, pura rebeldia. Internos, diferentes entre si e profundamente parecidos nas dores, nos sentidos, nos desejos. Encontraram-se por acaso [?] do destino. Dispararam vivências, sonhos, derrotas e concretudes. Olharam-se com brilho. Perceberam-se possibilidade. Remota… mas, ainda assim, possibilidade. Viveram. Aprenderam a respirar o ar um do outro, fingindo interesses, disfarçando animosidades, minimizando desejos, apegando-se aos desafios corriqueiros: “só por hoje”…

Escravos de si mesmos, presos em seus castelos de ilusão, negavam-se obviedades, fazendo da superfície o único lugar possível para convivência. Algozes entre si, mutilavam sentimentalidades, distanciavam doçuras, em troca de cordialidades. Guardavam as facas afiadas da frustração e do desamor, num apego tão insano quanto concreto. Não queriam abrir mão das palavras proferidas como juras no início. Volúveis e arrependidos, rogavam preces mudas ao tempo, para que houvesse um reencontro e não um fim.

Náufragos de relacionamentos anteriores, agarraram-se como bote salva-vidas. Salvaram-se… por algumas horas, que viraram dias… meses… tempo… Passado o tormento inicial, retomaram suas personas costumeiras… um para fora demais, movido a palavras, gritos, risos, atitudes… o outro, encolhido, escondido, sorrateiro… Desencontraram afinidades, dando espaço para interpretações amplas… toleraram diferenças, até perderem-se no vão de seus silêncios respeitosos.

Morreram.

“Ama-se o outro pelo modo como utiliza suas facas.”

(Autor desconhecido)

A benção e a falta de Pai

“Posso escrever os versos mais tristes esta noite.”

– Pablo Neruda –

O tempo não para, já dizia Cazuza. No calendário do consumo e das datas comerciais, alardeia-se novamente: é dia dos Pais! E, como o calendário, meus pensamentos também se repetem, ainda que o olhar mude aos poucos. Pego-me olhando fotos de crianças na escola, professoras elaborando festas para os pais, que a maioria dos pequenos já não têm [muitos nunca tiveram]. Olho as fotos tristes, o olhar vazio de crianças no meio do caminho… Pai é uma figura quase mágica, tipo Papai Noel, que tantos infantes não conhecerão, porque foram expostos desde sempre à realidade simples e cruel: pai é esse alguém que só existe para o outro.

Pode parecer cruel, mas é apenas a realidade da imensa maioria das crianças brasileiras. Enfim… vamos voltar ao homenageado do dia. PAI, essa figura rodeada de conflitos, imaginação, exemplos. Para alguns, é o melhor amigo, para outros, apenas o progenitor. Pouca diferença faz quando o tempo passa dentro de nós e, obviamente, vai mudando nossos pais. O pai da criança é cheio de coragem, orgulho, força…é aquele cuja voz ansiamos para nos parabenizar, colocar em cima dos ombros e sair pelos parques da vida. O pai do adulto também.

É, meu querido leitor… Quem tem pai próximo, presente, pode deixar de notar pequenas notas na voz dessa figura, pequenos brilhos nos olhos que acompanham uma simples apresentação. Confesso que sempre romanceei  essa figura. Até hoje me encanta a voz orgulhosa e o brilho nos olhos de meu pai, quando apresenta a amigos o filhão ou a filha mais nova. Puro orgulho. Satisfação para mim, que sempre desejei mais do que posses. É a garantia de ser motivo de orgulho, de ter um motivo a mais para seguir vivendo essa vida estranha.

Até que, um dia, o tempo passa e a vida vira a curva. Para os que têm a benção de ter pai e ver que o tempo passou nele também. Assistir o pai herói ansiar pela poltrona de descanso. Arrumar a casa para que nada fique na frente de seus passos, para evitar quedas. Percebemos que envelhecer é andar de mãos dadas com objetos, é subir escadas, mesmo sem degraus [cansaço].

Feliz do filho que pode cuidar de seus pais e acompanhá-los pelo corredor da vida. Dar as mãos e andar abraçado, com quem tantas vezes o carregou no colo. Feliz do filho que se dispõe a abrir espaço em sua agenda para olhar mais de perto o seu futuro e fazer as pazes com o passado, nos olhos vividos de seu pai. Acredito que somos filhos, humanos melhores, quando a vida nos dá oportunidade de cuidar do nosso berço.

Bendito o filho que almeja ser no dia a dia, na alegria ou na tristeza, no corredor da vida fora do comércio, o presente de seu pai.