Tag: #Cláudia Costa

Esquecidos

esquecidos

Produtos do meio [que não há]

filhos do abandono

corpos gerados do caos

Mentes efervescentes

Vagantes…

Por vezes vazias, por vezes mergulhadas em decisões confusas

Abismos desencontrados

entre passado e presente

Soluções forjadas

coerências fabricadas

[?por quem?]

Seres rejeitados, mal formados,

algozes de si,

ferindo cruelmente os…

vencedores [?]

 

 

 

Separação

“Deixa de sofisma e vamos ao que interessa
Deixa a dor que eu lhe causei agora é toda minha
Deixa tudo que eu não disse mas você sabia
Deixa o que você calou e eu tanto precisava
Deixa o que era inexistente e eu pensei que havia
Deixa tudo o que eu pedia mas pensei que dava”

– Oswaldo Montenegro –

separação

Chegamos aqui, esse lugar tão conhecido meu e agora, num cenário tão novo… A despeito de minhas milhares de tentativas de mudança, de tipos diferentes, algumas até completamente impensáveis até outro dia. Apostei alto (como sempre faço), apostei tudo. Sim, eu sei que essa não foi uma estrada de mão única, me apeguei loucamente ao sonho encantado que você me prometia. O faz de conta que existe…Faz de conta que é possível alguém suprir esse buraco negro de carência. Aguentar meus altos e baixos, bobagens, alegrias simples, essa vontade enorme de ficar sossegada e ao mesmo tempo tão intensa. Faz de conta que era de verdade, ter carinhos e afetos mesmo quando não merecia, por estar trabalhada no “modo dragão”, agressiva-defensiva, com dor e raiva por todo desamor vivido e que nada, nada tinha a ver com você.

Você…essa criatura que eu vi distanciar-se do próprio mundo particular para aportar inteiramente no meu e, que por um tempo de respeito, sequer demonstrava saudade da vida passada. O meu buraco negro de carência, entendeu aquilo como manifestação de amor e me deixou cega ao que era, obviamente fuga e carência sua. Você que me fantasiou rainha, poderosa e forte (desconfio que minha fantasia de dominatrix foi o que te instigou), você que se esforçou e cresceu para me agradar, provavelmente mentindo pra si mesmo, mas fez. Você, cujo excesso de promessas encantadas e carinhos constantes me assustava loucamente, você que parecia ter uma paciência forjada na alma, completamente nova pra mim (e que eu descobriria ser apenas preguiça de mudança). Você, tão apegado a sua fantasia de mim, que me convenceu, sem saber, que poderia “dar certo”, que poderia ser por mais tempo do que os outros romances de fachada, terminados ao primeiro ou segundo rabo-de-saia novo que passou rebolando, você que me fez baixar muralhas de defesa e raiva para aceitar a possibilidade de um amor tranquilo.

Ah ilusão!! Que piada barata e tosca, essa. De mãos dadas com a vida, me trouxe de bandeja meu pior medo, um pesadelo inteirinho vivido de forma arrastada, sofrida e inconstante…Sabendo dessa minha tendência de ser árvore e fincar raízes onde houver sossego e amorosidade, trouxe-me a fantasia embrulhada em pseudo-realidade e, pra não variar, puxou meu tapete na crista da onda, quando cada célula minha já acreditava no sonho realizado.

Dá pra gargalhar entre as lágrimas que caem, não mais de dor, não mais pela perda (que não há), mas por mais um sonho em ruínas. E vamos lá, seguir em frente, ver qual o próximo capítulo que me espera. Ansiando sem querer, voltar ao meu porto já não tão seguro assim, mas ainda meu. Respirando fundo para não mendigar afetos tão necessários ao momento, calando atrás do sorriso qualquer espécie de mágoa profunda. Tentando, enquanto ainda há tempo, partilhar minimamente do teu mundo de fantasia, onde agora habitam outros personagens e eu, passo a ser apenas parte da mobília. Sem importância, sem apego, sem carinho, sem toque inesperado e sem nenhuma palavra de amor. Apenas uso, tolerância por conveniência e algum esparso fingimento.

É…”a minha insanidade é tudo que me resta”, mas a despeito de tanta coisa torpe, sigo de pé, nariz ao sol e eventualmente, alguma gargalhada ácida. Estou de saída, e saio melhor do que entrei.

Ao menos uma vez.

‘Nada’ é uma palavra esperando tradução…

“Há espaço pra todos, há um imenso vazio
Nesse espelho quebrado por alguém que partiu
A noite cai de alturas impossíveis
E quebra o silêncio e parte o coração…”

– Engenheiros do Hawaii

Porque existem dias vazios, dias de nada… e, se você pensa em dias nos quais você não faz nada, engana-se. Há dias de nada que são tão lotados!

Você acorda no automático, levanta meio sem saber por quê [pelo trabalho, pelos compromissos, pelos filhos, pelos pais, pelo outro…], mas obedece a tudo que ouve desde que nasceu. É preciso seguir em frente. Sai de casa, interage com outras pessoas, segue as horas… lotadas e ao mesmo tempo tão vazias…

Há os outros, com as mentes turbinadas, ansiosas, preocupadas. Centenas de e-mails diários aguardando atenção, telefonemas e mensagens… há um barulho infernal lá fora. O tempo todo, as horas urgem, as cobranças chegam, a ampulheta esvazia e a gente vai… assim, no automático ao bel prazer de quem?

Os dias mais lotados são, não raro, os mais ocos, os mais ausentes. Sim, você se levantou, cumpriu todas as rotas, todas as tarefas do dia… e a sua voz, será que você ouviu? Decibéis nas alturas, burburinhos, expectativas, sonhos, frustrações, amores cada vez mais falidos [tanto quanto inventados]… e você, por onde anda? Qual foi a última vez que fez check-in das suas emoções, das suas ideias [não aquelas preocupadas com o vil metal, as SUAS ideias!], da sua voz consigo?

Os dias andam cheios, bipolares, tripolares, agressivos. Sem querer, a gente entra na onda e, quando vê, repete o vício, o grito, a fuga, o rito.

Cá pra nós, confesso: estou farta de dias lotados de vazio, de frases repetidas, de cumprimentos sem emoção. Por hoje, estou fã do nada. Esse momento idílico, em que tantas vezes encontro abrigo, silêncio, norte e até atenção… por que não?

Coisas Soltas

“Mesmo o extravio é belo, porque,

voltando,

a pessoa se torna mais enriquecida.”

– Osho –

 Fui engolida pelos dias. O que aconteceu? Não sei dizer…Perdi-me nas horas, muitas horas. Sentia dores, muitas, mas não foram elas que me travaram. Não me deixei ficar esparramada no sofá, não li os livros que queria, não acarinhei minhas gatas filhas o tanto que gostaria, não fiz faxinas, nem consegui fazer os trabalhos que queria. Mas não estava inerte.

Olha que loucura! Todos os dias, me levantei cedo, dei voz e vez às demandas da vida, às contas, às mudanças, às vozes de fora. Andei de ônibus, honrei pontualmente as horas marcadas. Estive fora. A única coisa minha desses tempos, foram enfim, terminar três livros que havia iniciado sei lá há quanto tempo. Estava no mundo…

Faz algum tempo que não me ocupo de credenciais profissionais para me descrever, tampouco para existir. Acho abusivamente enfadonho quando coleguinhas já chegam se apresentando pela profissão ou cargo ocupado. Sei lá, sinto como se estivesse sendo apresentada a um computador ou robozinho desses modernos que já se movimentam com certa facilidade. Em minhas palavras: CHATINHO….

Por favor, não se ofenda, caso faça isso! Não é nada pessoal, é apenas o meu sentir, um tanto cansado das mesmices hierarquicas- capitalistas-nada pessoais que ganharam status de normalidade por aí.

Então…como ia dizendo, perdi o tempo, o calendário, as memórias. Sei lá…por vezes penso estar meio lélé, um tanto biruta…Até que me caem aqueles cinco minutos de “lucidez” e me dou conta: TODA vez que vivo o cotidiano lá de fora, aquele bate estaca de acorda-levanta-se arruma- sai de casa – trabalha – paga conta – volta – queixa-se – dorme, morro. É assustador como isso engole a gente e ainda chamam essa repetição de vida!!

Olha, nas últimas semanas, eu fui filha, namorada, amiga, professora, mãe de gatas e administradora do lar e das contas, ou seja, não estive inerte, não estava comendo pipoca sentada no sofá vendo tv, todo esse tempo. Parece que passaram dois anos em um mês. Perdi prazos do que mais amo na vida: escrever! Fui posta de lado para projetos que me interessavam porque não vi os dias passarem. Meu labirinto interno e torto, parece ter dado a mão ao tempo e rompido-se de vez. Não percebi minha ampulheta quebrada até ser tarde.

Daí, minha filha mais velha começou a ficar carente demais, a me olhar com aqueles enormes olhos amarelos de amor e chantagem disfarçada de amor e, entre um miado e outro, me contou o que eu insisti em não ver: eu estava ausente de mim.  Solta, cansada, perdida. Dando voltas vazias em volta do tempo.

Até que algo aqui dentro se mexeu, renovei a ampulheta, pedi licença às filhas e voltei pro meu mundo particular. Articular letras-ideias-sentimentos-movimento. É o que conheço como vida, é o único jeito de não me sentir um zumbi. Voltei ao cheiro da tinta da caneta, do som do teclado e já sinto um vislumbre do coração batendo. É a vida voltando ao encaixe do caça palavras que me ecoam e invadem esse corpo, tal oxigênio para o moribundo com parada respiratória.

Por hora, voltamos a respirar! Oba.

Encontros

“Se o amor é fantasia,

eu me encontro ultimamente

em pleno carnaval.”

– Toquinho e Mutinho –

calma e alma

Na presença dele,
ela parecia puro êxtase.

Fundiam-se
manifestações da natureza.
A moça, contida, relembrou os tons quentes da vida
O moço, cansado, encontrou plateia ávida.

Desnudavam desabafos,
entre aplausos admirados.
perdoavam-se por pecados partilhados
reconstruiam-se…

Almas em desalinho
encontravam abrigo
fora do ninho.

Mistureba

     “Há algo muito errado com esse mundo

                                                                                                                                                           e não são as guerras na Ásia ou no

                                                                                                                                                                                         Oriente Médio.”

– Paulo Coelho –

leminski

Caminhos tortos, desaforos, insanidades e surpresas. Descida, vertigem, anseio, labirinto, desafio. Eu com o outro, eu sozinho, eu vizinho, eu em fuga. Eu que corro, eu que paro, sem amparo, eu que morro. Sorte estranha, miudeza, lamento agudo, vida corrida. Montanha russa, divertida, libidinosa, abusiva. Olha o teto, olha o branco, olha o banco a tua espera. Vazio. Respira. Volta, caminha, mais do mesmo, regalia. Hora choro, desimbesto, manifesto, alquimia. O cordeiro era tolo e o lobo o comia. Vida. Fome, riso, quase nada, tudo junto. Misturo. Era um doce, hoje é fel, carinho, colinho, chamego, que não vem. Maratonistas na pista, entretidos com fotos. Posam de saudáveis e não contam as custas de quem. Espelhos, trapaceiros, fantoches do dia a dia que não perdoa/ Ninguém.

Vejo cores em você

 

“Meu rigor está

em não trair

o que estou sentindo.”

– Adélia Prado –

Leminski...o destino

Vejo cores nas pessoas que olho nos olhos.
Percebo as nuances que mudam
ou (a parte triste) a cor que não reage, não muda.

Havia me esquecido que certas cores – em pessoas –
Fazem-nas parecer quase irresistíveis.

Falo do apelo de energia, da magnitude que espargem com suas cores vibrantes.
É uma gente apaixonada por seus sonhos…
sábios incontidos na própria embalagem.

Falo de uma gente rara, que inebria pelo brilho do olho.
Gente que pesa, pensa, equilibra
– e que também resiste, pra não perder a mão –

Falo dos gigantes que existem em nós e que, por medo ou insegurança, aprisionamos.
Até que percam a força ou se apaguem pela falta de contato…
ou plateia…

 

 

Maio, Abril, Janeiro? Afinal, em que ano estamos??

 

“A Lebre de Março vai ser interessantíssima,

e talvez, como estamos em maio,

não esteja freneticamente louca…

pelo menos não tão louca quanto em março.”

– Alice no País das Maravilhas – Lewis Carroll –

Esse senhor nobre e sorrateiro, que é o tempo, resolveu competir com nossa dinâmica tecnológica e apressou seu passo de tal forma, que não é raro, perdermo-nos nele.

Já sou figura assídua na contramão das maiorias, mas fui levada a pensar, por esses dias, que meu status de perdida anda se estendendo por tempo demais por estas bandas. Por mais que, em linhas gerais eu tenha entregue à vida a responsabilidade do “tempo certo” de me fazer retornar ao “eixo”, ando desconfiada de que até o eixo se perdeu na rapidez do tempo.

Hoje, cobraram-me prazos e respostas, que eu jurava necessárias para Abril e, ao pagar contas, também fiz uma confusão danada com Abril e Maio, parece que perdi o sentido para o qual seguem os ponteiros. Cismei que Abril começava e que seria praticamente eterno, pelo visto. Ousei pisar no freio e respeitar meu tempo interno, o tempo que este corpo urge enquanto o prezado senhor, acelerou as horas e no meio do caminho, fez nascer Maio, esse mês que, pelo pouco que consigo apreender, parece que este ano no Brasil, mal será notado, visto que se vive uma ânsia atroz por Junho. Já ouvi várias colocações sobre eventos e projetos para Junho, de formas que, num repente, tornei-me folha em branco a procura de registro. Oi? Ainda lembro do Natal e o ano de novo começou ontem. Até Abril, falavam em Copa, agora já ouço milhões de notícias e projetos de 2016 são cobrados. Olho para os ponteeiros que um dia, ajudaram a nortear minha existência, mas hoje, tenho dúvidas sobre o funcionamento eficaz das bússolas.

Ando regida pela estranheza, um desconhecimento contumaz do mundo que habito e de meus coleguinhas, até outro dia humanos, hoje funcionando como robôs ou deuses. Sem medo de errar, perdi o trem bala que mudou de nível aos que acompanharam o sr. Tempo. Fiquei aqui, ensimesmada e absorta no rasgar de folhas que meus dedos teimam e perdi a estação, a hora, o dia e, provavelmente o ano.

Onde estou e pra onde vamos?

Aparências

” Vou à janela esperando ….

mais triste, devo-te isto:

voltar a amar a vida como agora amas,

inteiramente, a tua morte.” 

– Lya Luft –

Angel & Demon

Na fragilidade da mente
A gente finge que se engana
Olha lama e pensa terra
Olha terra, pensa barro,
Vê chão e pensa pedra.

E como a gente erra!

Vê belo e pensa oco
Vê livre e pensa uso
Olha sorriso e vê consentimento

Tormento.

Vê tímido, enxerga distância
Vê alegre, acha fácil
Vê gente, pensa coisa.

Que doida!

A cara da gente
Não escreve sentimento
Lamento
Quem enxerga demais
Ouve de menos
Ilude, finge…

Vive?

[In] Constâncias

“Quando as estrelas,

começarem a cair,

me diz, me diz,

pra onde a gente vai fugir?”

– Renato Russo –

bipolar 

Os dias seguem, finalmente lindos.

Chuva e temperaturas amenas me levam pra dentro

Da casa, do corpo, do interno que me habita.

Por fora disfarço-me em belos sorrisos

[cansados]

Por dentro, uma ebulição constante

me consome.

Preocupações [inúteis],

Ansiedades [estúpidas],

raivas [quase insanas].

Tudo borbulha e se mistura

corroendo a mente,

levando embora a energia.

Preciso chover

[e não consigo]

Preciso trovejar

[mas o barulho me amedronta]

Preciso correr, fugir, sumir

Morrer!

E que essa morte passe,

que eu exploda

[e volte]

Respiro, ajeito coluna,

volto ao sorriso.

Num esforço descomunal,

vou ali, fingir beleza e alegria

Enquanto jogo fora esse tapete

[lotado de sujeiras esquecidas]

e sigo caminhando

Descalça, despida

De medos e loucuras.

A pele, apenas permeada

de poesia

[silêncios].