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Pedir Amor, mata

marina-carlos-ruiz-

Se eu tiver que te pedir qualquer manifestação de afeto ou carinho,
vou me iludir em ondas tão gigantes que me afogarão pelo que não tenho.
Já dizia Beth Carvalho: “Carinho não se pede por favor.”
Porque ao receber migalha, faço-me pedinte
e interiorizo o pseudo-afeto mecânico-fake dos dias.
E, quando eu acordar,
terei murchado e morrido pelo amor
que não me dei.

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Timing – Encontros, Desencontros e medos

timing

Problema do amor é timing. Quando eu quero amor profundo ele está pra lero lero. Se eu vou de aventura, ele quer anel no dedo. Você sabe que é o cara, seu tamanho, tudo a ver; que delícia, agora vai. Ele olha a gata serena, sagaz, ideal  de seu imaginário, e…não sente neca. A culpa é do tempo, dos tempos dissonantes de cada um. Você dedicada, amantíssima, acaba de se separar de um cafajeste contumaz, tá doida pra sorrir, respirar, brincar…tropeça no último romântico. Vice-versa a coisa segue num desencontro de lascar. Por que? Porque c´est la vie e pronto. Não adianta esperar por um milagre, não vai acontecer, quando ele finalmente assentar, ela estará desgastada pela espera; se rolar  fará da vida um transtorno que ele não merece, pois enquanto ela se vestia de princesa, ele levava na cabeça a tempestade. E agora que chegou, para ele, a calmaria, ela arrancou as sedas, se arrastou para um pântano vizinho, e se afundou até o pescoço. Quem insistir, repetirá Sísifo, levando pedras ao topo da montanha para vê-las rolar morro abaixo. Impossível uma reconstrução. Sim, existem aqueles casos históricos, Yoko e Lennon, Rainha Vitória e Príncipe Albert, Zélia e Jorge Amado, os duques de Windsor, Rimbaud e Verlaine, Marco Antônio e Cleópatra. É…às vezes dá certo.

* Texto retirado do livro Todo Vícios de Maitê Proença

Até quando?

“Até quando esperar,

 a plebe ajoelhar,

esperando a ajuda,

do divino deus?”

– Plebe Rude –

No escuro da noite que finalmente me aconchega, libertam-se com força e voz, todos os questionamentos corriqueiros engolidos ao longo dos dias, das horas, da vida… Até quando? É certo que não sei. Provavelmente até que eu pare de respirar ou me perca completamente de mim, o que vier primeiro.

São tempos de dúvidas massacradas e de intolerâncias vorazes…Dia desses quase fui agredida por um taxista, porque estava conversando sobre política com meu partner. Sem dó, piedade ou vestígio de educação, o homem se meteu na conversa e transformou-a em monólogo feito aos berros. Que dizer? Como o trajeto era pequeno, tentei contar a ele que não discuto política, religião ou futebol, mas o pobrezinho nem isso conseguiu ouvir e seguiu seus 5 minutos de invasão. Lamentável… Mas, diante de tantas outras coisas quase insanas, esse episódio vira detalhe.

Ainda outro dia, conversando com uma amiga, demonstrei certa empatia com mulheres que sofrem violências em casa e não denunciam. Não se trata apenas de agressão física, mas da agressão moral, que retira da pessoa, a estima, a dignidade e, por vezes, a noção de realidade. É um fato que mulheres são criadas para cuidar, seja dos irmãos, das bonecas, da casa ou dos filhos. Mulheres são habituadas a tolerar mais dor, por conta de cólicas, partos ou por terem (algumas) permissão para demonstrar mais emoção. Partindo dessa premissa, parece quase “natural” que tantas mulheres comecem a defender seus agressores com desculpas como o estresse no trabalho, o nervosismo pelas finanças, o excesso de cansaço, alcóol, ou sabe-se lá que outras desculpas…Preferem vestir-se mais para cobrir os hematomas, escondem-se atrás de sorrisos forçados, alardeiam o quanto o agressor é bom em outras coisas, o quanto as ama e por isso sente-se a vontade para depositar nelas toda sua frustração transformada em raiva. Uma ilustre desconhecida ouvia nossa conversa e, quando minha amiga se afastou, aproximou-se de mim agradecendo. Acreditando que eu faria o mesmo, caso fosse violentada por alguém muito próximo. Chorei. Me senti agredida e agressora durante o desabafo dela. Não sabia como ajudá-la, mas ofereci meu abraço.

“Pequenas” coisas que vão dilacerando a minha fé no humano. Quando amamos e não há retribuição, quanto tempo levamos pra enxergar? Quanto tempo duram as desculpas? Quanto tempo aguentamos as dores, a secura, o desaforo? Quanto haverá de resiliência numa mulher que acredita em “amor incondicional”? Quanto tempo perdura uma ilusão?

As interrogações da noite, passeiam entre a total falta de tolerância e a tolerância desmedida…Faço uma prece silenciosa, pela paz de espírito de todos nós. Ao mesmo tempo, duvido. Já não sei se há tempo para haver espírito onde o humano se perdeu.

O excesso, parece cada vez mais limitante. As vozes, cada vez mais doloridas. As dores, habitam entre gritos e silêncios e já não sei se alguns de nós conhecem o que chamam de amor…

Cláudia Costa

*Este post é parte integrante do projeto Caderno de Notas – Quarta Edição, do qual participam as autoras Aurea Cristina, Claudia Costa, Fernanda Farturetto, Lunna Guedes, Maria CininhaMariana Gouveia e Tatiana Kielbeman