Interlúdios

Em meus textos sou autora de todas as vírgulas.
As faltas e também os excessos me pertencem.
Só assim sustento o frágil equilíbrio que me mantém
na posse de mim mesma.

– Eliane Brum –

interludio

Com o tempo, tenho ficado mais vagarosa
Tão lenta que até o amar mudou de forma
O choro agora dura menos
e a certeza da passagem é mais forte.
Com o tempo, meu olhar vestiu-se de vento
e aos poucos, vai aprendendo a mudar.
Somos nuvens…
estamos todos, apenas aguardando uma chuva
[ou tempestade]
para nos levar.
Aqui, agora, desenho letras, enquanto admiro o tempo.
Tomara que possa virar frase
quando me juntar ao mar.

Separação

“Deixa de sofisma e vamos ao que interessa
Deixa a dor que eu lhe causei agora é toda minha
Deixa tudo que eu não disse mas você sabia
Deixa o que você calou e eu tanto precisava
Deixa o que era inexistente e eu pensei que havia
Deixa tudo o que eu pedia mas pensei que dava”

– Oswaldo Montenegro –

separação

Chegamos aqui, esse lugar tão conhecido meu e agora, num cenário tão novo… A despeito de minhas milhares de tentativas de mudança, de tipos diferentes, algumas até completamente impensáveis até outro dia. Apostei alto (como sempre faço), apostei tudo. Sim, eu sei que essa não foi uma estrada de mão única, me apeguei loucamente ao sonho encantado que você me prometia. O faz de conta que existe…Faz de conta que é possível alguém suprir esse buraco negro de carência. Aguentar meus altos e baixos, bobagens, alegrias simples, essa vontade enorme de ficar sossegada e ao mesmo tempo tão intensa. Faz de conta que era de verdade, ter carinhos e afetos mesmo quando não merecia, por estar trabalhada no “modo dragão”, agressiva-defensiva, com dor e raiva por todo desamor vivido e que nada, nada tinha a ver com você.

Você…essa criatura que eu vi distanciar-se do próprio mundo particular para aportar inteiramente no meu e, que por um tempo de respeito, sequer demonstrava saudade da vida passada. O meu buraco negro de carência, entendeu aquilo como manifestação de amor e me deixou cega ao que era, obviamente fuga e carência sua. Você que me fantasiou rainha, poderosa e forte (desconfio que minha fantasia de dominatrix foi o que te instigou), você que se esforçou e cresceu para me agradar, provavelmente mentindo pra si mesmo, mas fez. Você, cujo excesso de promessas encantadas e carinhos constantes me assustava loucamente, você que parecia ter uma paciência forjada na alma, completamente nova pra mim (e que eu descobriria ser apenas preguiça de mudança). Você, tão apegado a sua fantasia de mim, que me convenceu, sem saber, que poderia “dar certo”, que poderia ser por mais tempo do que os outros romances de fachada, terminados ao primeiro ou segundo rabo-de-saia novo que passou rebolando, você que me fez baixar muralhas de defesa e raiva para aceitar a possibilidade de um amor tranquilo.

Ah ilusão!! Que piada barata e tosca, essa. De mãos dadas com a vida, me trouxe de bandeja meu pior medo, um pesadelo inteirinho vivido de forma arrastada, sofrida e inconstante…Sabendo dessa minha tendência de ser árvore e fincar raízes onde houver sossego e amorosidade, trouxe-me a fantasia embrulhada em pseudo-realidade e, pra não variar, puxou meu tapete na crista da onda, quando cada célula minha já acreditava no sonho realizado.

Dá pra gargalhar entre as lágrimas que caem, não mais de dor, não mais pela perda (que não há), mas por mais um sonho em ruínas. E vamos lá, seguir em frente, ver qual o próximo capítulo que me espera. Ansiando sem querer, voltar ao meu porto já não tão seguro assim, mas ainda meu. Respirando fundo para não mendigar afetos tão necessários ao momento, calando atrás do sorriso qualquer espécie de mágoa profunda. Tentando, enquanto ainda há tempo, partilhar minimamente do teu mundo de fantasia, onde agora habitam outros personagens e eu, passo a ser apenas parte da mobília. Sem importância, sem apego, sem carinho, sem toque inesperado e sem nenhuma palavra de amor. Apenas uso, tolerância por conveniência e algum esparso fingimento.

É…”a minha insanidade é tudo que me resta”, mas a despeito de tanta coisa torpe, sigo de pé, nariz ao sol e eventualmente, alguma gargalhada ácida. Estou de saída, e saio melhor do que entrei.

Ao menos uma vez.

Fim

Se hoje haverá um dia inteiro, não importa.

Amanhã o sol volta a raiar. Será?

[aquela voz soturna, que me habita, quase grita: – Tomara que não.]

Preciso acabar. A esperança já foi, a vontade bateu asas e, a empáfia que me acompanhava, se mudou pra longe.

Mudei. Me mudei de mim.

Num auto-abandono tão silencioso quanto declarado. Morri.

Me matei trocentas vezes na mesma porra de vida, no mesmo corpo mutante e trôpego. [cansado.]

Não há força pra ficar. Fui exímia na arte de me dilacerar, de cavar um buraco sinistramente fundo, disfarçado de esperança, confiança, sei lá…

Não importa. Ninguém esta mais decepcionado que eu.

[ela prometia tanto…]

O ar acabou, o amor nunca existiu, foi apenas forjado num conto mal escrito por alguém de gosto duvidoso. Foi…

Felicidade? Só na vida alheia. Aqui, no máximo um riso desesperado, ou uma gargalhada de fim entristecido. Olhos caídos, boca seca de lábios trancados. Ombros curvados ao peso das apostas perdidas. Perdia…

Devem haver jogadores de boa mão, cuja inteligência afiada, lhes garante ficar um pouco mais. Não eu.

A cada aposta perdida, um tanto de vida  escoa.

Embriago-me – destilados e psicotrópicos – para ter companhia.

Demônios todos a postos, já não há dor. Apenas vazio.

Nada. É isso. Nomeado, concreto, oco.

Apenas um corpo apodrecendo com o passar dos dias.

Um tempo enorme de palavras jogadas [vazias].

Sem direito a eco, até Narciso te abandonou.

É o que faz a vida, com quem aposta mais no outro do que em si: Quebra, Esvazia…vai.

O roxo doloroso no corpo, mostra a degradação, o esquecimento. Uma bandeira ao desrespeito permitido, feito.

Trêmula e histérica…lábios trancados, cenho franzido, o rosto que desenhava quando criança: amargo. Falta apenas a lágrima, que no desenho havia, mas que cansou de rolar em vão na realidade.

Sem ar, sem par, sem lar.

Até seu mar esvaziou.

Seu fim era esse: seco.

Amor e outras Drogas

Com a proximidade do dia dos namorados, é quase impossível para uma apaixonada convicta não questionar temas como amor e relacionamentos em geral.

Esta semana, em voga, namorados de aluguel, solteiros se juntando para comemorar juntos o tal dia e um texto delicioso questionando a importância de se ter um namorado nessa data, já que no dia do índio não comemoramos com um índio ao lado, nem passamos o dia da árvore abraçados com uma… faz sentido!

Enfim… engrossando a fila dos que falam do assunto, cá estou.

É sabido que sou favorável a paixões incandescentes; sou dessas que não dispensam um coração acelerado, uma boa história cheia de senãos e poréns, dessas mulheres que, apesar de qualquer coisa, acreditam muitíssimo nos romances, nos amores, nos relacionamentos… Porém, é fato que, cada dia mais, estou convencida de que atualmente o amor é utilizado como qualquer outra droga disponível no mercado (lícito ou negro).

Na prática, funciona como qualquer vício, basta perceber: no começo, a gente conhece a pessoa e vai curtindo, aos poucos, de leve… sorrisos, leveza, afinidades, diferenças: tudo parece tão providencialmente encaixado…

Você fica com a criatura por duas horas, pensa nela por 5 minutos e esquece por 3 horas ou até a próxima ligação sem grandes ansiedades, tudo muito natural e tranquilo… Porém, basta uma certa constância, encontros, mais daquele bem-estar e… você agora olha para o telefone e se pergunta por que ele ainda não tocou, fica ansiosa até ver aquela mensagem… nossa! O coração acelera, um sorriso enorme ilumina o rosto e podem até xingar, que nada te tira a alegria, pois você está levemente anestesiada.

Nesse estágio, você pensa na pessoa por 3 horas e esquece por 5 minutos… O tempo passa, vocês se entendem, se desentendem e o relacionamento parece ser parte de você desde sempre… Agora, você nem percebe, mas já abre mão de várias coisas que julgava imprescindíveis para que a relação seja boa para os dois e não haja conflitos.

Um lindo dia, algo dá errado, vocês se desentendem seriamente e não mais podem estar juntos. Pronto! Inicia-se o seu inferno astral, fora de aniversário. Seu mundo cai, você se desconhece, já não se lembra do que curtia fazer quando a pessoa não existia. Parece que vai morrer asfixiada só de pensar que a pessoa nunca mais voltará, daria facilmente 2 minutos de vida para tê-la ao lado, para que tudo voltasse a estar bem e em paz e vocês se amassem em perfeita sintonia.

A sensação é de morte em plena vida: a alegria dá lugar a um desespero tal que saídas como reza forte, bebedeiras e remédios para dormir são sempre muito comuns, além, é claro, de um ou outro eventual ouvido amigo… Deprimido e triste, você não pensa em mais nada além da outra pessoa e da falta que ela faz.

Quem já terminou um relacionamento em que estivesse muitíssimo apaixonado sabe do que estou falando. A descrição é idêntica ao uso (e falta) de
drogas viciantes… Penso que, talvez por isso, por toda a química envolvida no processo de “amar”, as pessoas estejam tão mais rapidinhas nas trocas de parceiros, afinal, deve ser mais interessante trocar rápido de vício (ou usar outro paralelo) a investir no que já se tem.

Não importa, afinal, é apenas uma reflexão…

Porque amor é vício, desamor é precipício e somos todos seres viciantes… Humanamente viciadinhos nessa deliciosa arte que é amar.

Bela Ira

Foge de mim o tempo de ontem
Foge-me o chão, o porto
O seguro…

Me reviro
Viro, mudo
Deito, calo, adormeço
Reinvento

Não acordo.
Sigo o sonho
De transformar tudo
Em beleza

Desejo transformar em lira
O que a ira me dá de dissabor.

Ao amanhecer
A alegria
Há de me trazer
O meu amor.

Gente ou cachorro vira-lata?

Em tempos de correria, redes sociais, informações excessivas, mentiras excessivas e, ao que me parece, excessivo desamor também, um questionamento anda frequentando meu lounge particular com grande frequência: estamos nos acostumando a viver nossa sexualidade como bichinhos primitivos e deixando a seleção e os sentimentos em segundo plano?

Nem pensem que venho aqui comentar sobre o desamor romântico. Apesar de acreditar que esse também anda escasso, venho comentar dos amores simples, dos autoamores e até dos “amores sexuais” (se é que isso existe).

Anda me chamando a atenção a rapidez com que a raça humana troca de parceiros sexuais ou amorosos, isso quando chega a trocar, porque, ultimamente, o que mais se vê é uma nova versão de Sodoma e Gomorra, em que todos usufruem de parceiros variados ao mesmo tempo.

Ao contrário do que possa parecer, não estou aqui para levantar a bandeira da “pseudo – moralidade” e sim, manifestar uma curiosidade quase sociológica, já que conheço montes de pessoas de ambos os sexos que dizem querer um relacionamento “convencional” com valores como fidelidade, amor, cumplicidade e companheirismo, mas, no entanto, muitas dessas mesmas pessoas fazem parte de triângulos, quartetos ou octógonos “amorosos”.

Alguns curtem aos montes as casas de suíngue ou suas similares, outros não são favoráveis, mas vivem romances tórridos iniciados normalmente virtualmente, mas, numa questão de oportunidade pulam para a vida real, para dar um “quê de paixão” aos dias. Pergunto-me onde vão parar nessas horas a tal fidelidade, a cumplicidade, o companheirismo e blá, blá, blá…

Sexo é bom e todo mundo gosta. Fato. Então é isso? Essa e a tal “liberdade” são as justificativas para que nós, seres humanos, em tese pensantes, estejamos tendo uma vida sexual cada vez mais parecida com a de qualquer cachorro vira-lata, instintivo, que transita por aí?

Nenhum tipo de conceito antiquado do tipo “meu corpo é meu templo” ou coisa que o valha… Vamos acumulando o máximo possível de parceiros por aí, afinal, “sexo é vida” e “amor vem depois”, e vai saber se o tal amor não é, no fim das contas, uma espécie de utopia…

Geração saúde, cuida do que come, não fuma, bebe moderadamente ou não bebe, malha religiosamente, cuida da beleza como se fosse um Deus, mas, quando o assunto é sexo, pode tudo: quanto mais gente, melhor?

Gente faz isso? Gente que pensa e é capaz de sentir algo a mais que a puxação de ferro da academia age assim?? É o tempo da liberação, da rapidez, da falta de caretice, da “libertação”. Libertação ou falta de seleção/critério?

Particularmente, penso que uma das muitas possibilidades é que nossa modernidade esteja usando sexo como fuga, como anestésico ilusório contra a imensa solidão que, no fim das contas, certamente habita não apenas os cachorros vira-latas, mas também os humanos que como eles se comportam…

Mas isso, meus caros, é apenas uma das minhas muitas reflexões…

Prazer & Intimidade

Distraída, desavisada

Aceitei convite simples

Pra te olhar nos olhos

Pra me deixar ver.

Sorrimos juntos ao primeiro olhar

Curiosos, surpresos

Deixamos de ser fotos

Passamos a ser humanos

Com vozes, olhares, timidez

E vontades…

Uma vontade de mais

Mais encontros,

Mais palavras,

Mais trocas,

Conhecimento,

Intimidade.

Quando enfim nos tocamos,

Um carinho intenso

Uma energia vibrante

Alegria contagiante nos abraços…

Olhos de realidade derramados um no outro

Uma sensação

De sintonia fina

Desejos incandescentes

Indecentes…

Encontro de intensos

Marrentos

Amantes.

Encontro de gente grande

Que se esconde entre muros de defesa

Mas se entrega com leveza

Com sorriso

Com vontade

Constrói a cada olhada

Palavra trocada

Carinho intenso

Prazer & Intimidade.

Diferenças versus Semelhanças

Dias desses, me peguei impaciente, completamente intolerante às diferenças brutais. A impaciência era tanta que simplesmente deletei montes de leituras “desnecessárias”, conversas “vazias”, pessoas de “superfície”, inutilidades segundo o meu olhar (impaciente e arrogante).

Acontece que, por aqui, pouca coisa se faz sem trazer consigo uma reflexão, um olhar mais apurado. Resolvi conversar com meu espelho sobre as atitudes tomadas, sobre os sentimentos de impaciência e irritação que me adentravam. Percebi que ando selecionando com muito mais rigor pessoas cujas ideias, ainda que não pareçam em nada com as minhas, ao menos me encantem, me despertem. Ando me revoltando de forma quase perigosa com os “casuais”, “superficiais” e excessivamente “alegrinhos constantes”. Ando conscientemente procurando semelhanças e descartando diferenças.

Normal? Pode até ser, mas certamente nada saudável. Num tempo em que a diversidade está em voga, as diferenças são excessivamente enaltecidas, a mesmice vulgar me causa um cansaço absurdo, mas é uma bobagem ignorá-la, afinal, é o mundo real… É a rotação atual… Divergir, obrigar-se a tolerar, conviver, ler e ouvir é necessário… Será?

Eu me incomodei tanto com a minha atitude “separatista” que resolvi rever meus conceitos. É óbvio que não voltarei atrás na decisão de manter uma distância segura daquilo com que não concordo em absoluto e que nada me agrega. Por outro lado, apesar de não trazer para o meu cotidiano a superficial realidade, optei por trocar meu olhar… Percebi que também eu sou bem digna de rótulos desfavoráveis quando vista com olhares críticos e julgadores – também sou digna de “diferenças” que me tornam “deletável”.

Descendo do meu alto posto narcísico, vi-me como igual dos meus “diferentes”, percebi que, graças as nossas diferenças, construímos nossos valores, preferências, conteúdos… Fazemos história!! Num segundo olhar, cheguei a ficar grata aos diferentes e superficiais, porque me obrigam, para poder coexistir, a me reescrever, a me reinventar e até a relaxar um pouco mais, haja visto que a vida não é, também, uma séria profundidade a todo o tempo.

Independente de quaisquer coisas, somos mundanos, estamos vivos, precisamos do superficial para alavancar certas criações, para nos ajudar a levar a existência com mais leveza, com mais sossego, com mais tolerância.

O crivo que me aperta o peito limita, eventualmente, o meu olhar. E, apesar de ser um fato inquestionável que as semelhanças me atraem como mel para abelhas, fiquei mais em paz ao conseguir ampliar meus horizontes e acolher também as diferenças como forma valiosa de crescimento e existência.

E você, anda com os horizontes abertos para degustar diferenças ou ainda está, como eu, apegado às parcas semelhanças??

Vamos juntos, descobrir e, na medida do possível, aprender com as diferenças?

Quem é você?

“Amanhã tudo volta ao normal.
Deixa a festa acabar,
Deixa o barco correr…”

– Chico Buarque –

Desde sempre, visto essas roupas de questionar.
Desde sempre trouxe certezas [bobas]
Teses de vida, dores de vento
Desde sempre, até ontem…
Ontem, caí da escada
E o mundo quebrou.
Desde então
Não me reconheço em espelhos
Mudo cabelos,
Troco de tom
O mundo mudou.
E eu fiquei ali,
Quebrada, encolhida,
Assustada.
Foram-se as certezas,
Fincaram-se as perguntas.
Desconheci o corpo,
A mente, as vertigens.
Mergulhei em desamores
Desfiz-me em ventanias
O tempo passou
Eu ainda estou
Aqui…
Transformada nessa veste nova
Onde hora me reconheço [sou música do Chico]
Hora me espanto comigo [heresia]
Creio num Deus amigo que me habita
E que ainda me levanta.
Sigo.
[Abismo].

Uma Vida Inventada

“Existe uma forma nebulosa de viver

entre sonho e realidade,

que depois quase todos

perdemos.

(Exceto os artistas e os loucos).”

– Lya Luft –

Estes tempos incertos andaram corroendo, silenciosamente, minha calma, minha alma e minha paz. Lá fora, a vida virou zona. A “sociedade” generalizou e abriu o verbo: “Mulheres são culpadas! Pedem para serem estupradas”. Virou notícia e, dolorosamente, virou piada.

A Copa [do Mundo, segundo dizem] é notícia séria, alardeada. Nada sei sobre o assunto, além do fato de que – acontecer no Brasil – tornou minha existência muito mais cara. Enquanto isso, canonizam Jesuítas [precisamos, urgentemente, de milagres!]. Grandes atores conquistam o passe livre para falecer. Guerras pipocam, crianças assaltam e matam, pessoas somem e tudo, absolutamente TUDO, parece ser banal.

A vida vai escorrendo pelos dias, enquanto fingimos que dores são sentidas e, num piscar de olhos, abstraídas. O mundo não para!! Se a gente parar por tristeza, dor, doença ou covardia, o mundo atropela. Experimente dizer, numa roda de adultos, que você simplesmente não quer saber das cobranças de tempo e dinheiro… Vai ser apedrejado! Imediatamente rotulado de alienado, louco, comodista ou derrotado. Triste.

Legal é ser descolado, fazer da [sua?] vida, uma espécie de novela. Trabalhar sempre demais, ter um carro bacana, um status qualquer que seja invejado e almejado pelos coleguinhas, um estresse de estimação, beber um tanto pra esquecer ou “relaxar”, esconder as bolinhas que toma “pra não pirar”, viajar, sair, festejar tudo o tempo todo. Juro que, só de pensar nisso, já fico estafada.

No meio disso tudo, amargo bola nas costas, vislumbro deuses de carne, osso e sorrisos minuciosamente talhados pela máscara da fantasia.

Nesse solitário brinquedo de existir, alternamos trabalho duro com euforia cintilante.

Vamos trocando interpretações próprias por citações aos montes. Fast-food, papagaios, balas, bombas, barulho, balbúrdia, amores de ocasião. Lutamos alegres, sem tempo pra viver. Sorriso estampado, enquanto o outro sangra, sente fome, mas tira foto. Tudo escondido nas entrelinhas das fatalidades e dos acasos.

Indagar é um desafio permanente. Encontrar tempo pra SER também é.