Finados… finalmente mortos!?

“Há tanta gente morrendo a cada dia, sem partir.
Esta saudade do tamanho do infinito caindo sobre nós.
Esta lembrança dos que já foram para a eternidade.
Meu Deus!
Que ausência tão cheia de presença!
Que morte tão cheia de esperança e de vida!”

– Padre Juca –

Dia de Finados… mais um de nossos feriados cristãos. Esse tem por objetivo celebrar, em missa e voz, os amigos-irmãos que já partiram do nosso cotidiano.

Particularmente, um dia como outro qualquer, mas que insere em si uma alforria social para que possamos chorar, relembrar e reviver nossos “mortos”. Sim, mortos entre aspas, muitas aspas nessa palavra, por sinal. Afinal, quantos de nós não conhecem um, dois ou meia dúzia de zumbis que ainda nos circundam?

A palavra “mortos” entre aspas, neste texto, também é usada pela memória, pela lembrança que nos mantém vivos nos corações daqueles que tocamos em vida. Juro para vocês que eu conheço “gente morta” muito mais viva do que alguns “vivos”. Ainda há pouco, li um trecho de desabafo em que uma alma querida se dizia feliz, porque amanhã poderá se lembrar de um ente amado em voz alta… seja para lamentar os abraços não mais possíveis aos nossos olhos, seja para rememorar os feitos da pessoa que se foi, seu abrigo, seu amor… Confesso que o desabafo me doeu.

Sim, também trago minhas lembranças… boas e más, pois são parte do que os “mortos”, que me tocaram, deixaram em mim. Não, você não entendeu errado: eu tenho lembranças ruins de alguns “mortos”, sim! Jamais consegui entender essa coisa de fazer de um morto uma espécie de santo. Fulano era um traste, em vida todos reclamavam dele, viviam cobrando posturas diferentes e blá-blá-blás cotidianos, até que “bateu as botas” e instantaneamente se tornou o ser mais amado e angelical da família. Não cola, não cabe, não vira. Hipocrisia deveria ser proibida por lei no campo das emoções, mas isso já é outro papo.

Deixando de lado a beatificação dos simples mortais como nós, sigo  aguardando o dia dos vivos. É isso mesmo: dia dos vivos! Claro que não me refiro aos tais zumbis, que se alienaram dentro da rotina trabalhadora-consumista dos dias, mas dos vivos de verdade. Esses, que ainda se lembram de incentivar, sorrir, cumprimentar, olhar nos olhos, enfim… que se recordam dos seus vivos. Espero ansiosamente o dia em que as pessoas hão de se programar para serem mais afáveis com o seu entorno, com o coleguinha ao lado e mais, muito mais, com aqueles que lhes aturam no dia a dia. Não somos santos! Nenhum de nós é e estamos tranquilos com isso… logo, para que aguardar o Dia de Finados para cuidar, chorar, lembrar, dizer que se ama muito alguém? É preciso mesmo esperar essa ausência constante para valorizar o outro em voz alta?

Que tal orarmos, dizer que amamos e o quanto estimamos nossos amigos-entes-irmãos hoje, também? Que tal festejarmos e cultuarmos nosso abrigo possível? Fazer jus à vida, dando um abraço mais demorado naquele irmão chato [mas que você não consegue se imaginar sem], beijar as mãos de seus pais até se cansar, mostrar que ama quem você ama? Que tal celebrar com o padeiro, que te dá “o pão de cada dia”, o BOM DIA que vocês terão? Que tal chorar de emoção e saudade antecipada, ao abraçar carinhosamente seu pai, sua mãe, seu filho-tio-sobrinho-cônjuge-afilhado-amigo?

Gostaria que esse Dia de Finados fosse comemorado com alegria. Aquela genuína, forte, vibrante… que contagiasse a todos a nossa volta. Gostaria de ver pessoas com sorrisos de gratidão estampados no rosto, por terem tido a bênção de conviver com aqueles que partiram. Que fosse uma data regada a lágrimas de saudade e carinho por todos os que foram e ainda são muito vivos em nós… mas também pelos que aqui estão, tornando nossa jornada cotidiana uma caminhada de aprendizado, afeto, tolerância e evolução.

Podem dizer que o dia é de Finados, mas eu convido você, que me lê, a dançar o ritmo do afeto entre seus vivos, abençoando com sua atitude humana, educada e sensível a todos os seus “mortos”. Fica o convite, caro leitor, para celebrarmos em grande estilo a chuva, a renovação, a semente, a emoção e a vida… sua, minha e de quem vier.

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