Desafio do Espelho

“… enfim, sei quem eu era,
quando me levantei hoje de manhã,
mas acho que já me transformei
várias vezes desde então.”

– Lewis Carroll –

Desafio do Espelho

…são três da manhã, de uma sexta-feira qualquer. Lágrimas correm soltas por meu rosto e, assim como Alice, sinto raiva por essa água que transborda, construindo rios que hão de me afogar. Afogar… lembro-me vagamente, de Alice resmungando que não tinha visto quem tivesse conquistado algo com lágrimas.

Aprendi com Alice que chorar é “coisa de menininha mimada” e que, chorar por muito tempo, é uma espécie de válvula de escape dos pseudo-fracassados. Ah… aprendi tantas amarras de culpa, pela vida afora…

Então, depois de percorrer tantos caminhos diferentes e sorver o melhor e o pior de cada um deles, vejo que pertenço à intensidade um tanto insana dos sonhadores: os que acreditam em “caminho linear e correto”, que anseiam por serem aceitos como são, fazer parte e ser útil a alguma tribo, pessoa, empresa, sociedade ou qualquer “coisa viva” (notou a pegadinha?), além de si mesmos. Algo de fora justificando uma existência que, por si só, parece pouco.

Temos sede do que não entendemos, criamos julgamentos para os outros, de forma a nos manter como bons, superiores e corretos (somos todos, guerreiros da vida, poderosos em nossos tronos de apontar dedos acusadores). Rebeldes, idealistas, fracassados ou (a preferida de muita gente “boa”) loucos! Só pensar nisso já cansa, dá um tédio tremendo de quem deixa seus pedaços pelo caminho e arrota superioridade, no rosto de quem ainda está experimentando caminhos.

Ainda ontem, alguém afirmou que eu não sei quem sou. Sorri e dei de ombros. E quem sabe quem sou eu, além de mim? Para cada amigo, parente, parceiro ou passante, haverá, sem sombra de dúvida, uma resposta diferente. Eu, você, a vovozinha da esquina… somos todos colchas de retalhos, muitos abrigados no mesmo corpo, à mercê das energias. Internas e externas, mas isso é conversa para outro texto.

Ao levantar os olhos, descubro que já passam das quatro, as águas que me afogam cansaram de cair. Percebo que me alonguei em divagações e que meus espelhos são muitos… A maioria já quebrou muitas vezes, deixando em mim essa sensação de cacos (ou caos). Despeço-me do texto e da minha escuridão. Vou ali, para o conforto conhecido da colcha de retalhos que ainda segue em construção, enquanto a menina Alice ainda ecoa, no fundo do pensamento, a pergunta:

– Seu espelho te conta quem é você?

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