Adultério

– Ser feliz ou viver apaixonado? –

“Minha tristeza se tornou rotina,
ninguém percebe mais (…)
Estou substituindo minha falta de alegria
por uma coisa mais concreta,
um homem.”

– Trecho do livro ‘Adultério’, de Paulo Coelho –

Adultério. É esse o tema do mais recente livro de Paulo Coelho e, antes que você imagine que vim escrever resenhas, divulgar o autor mais lido do país ou coisa do gênero, enganou-se. O Google, a mídia e três milhões de outros blogueiros já fizeram isso. A ideia aqui é simplesmente traçar correlatos e, principalmente, esvaziar o tanto de conceitos que ficou em minha caixola depois de ler o livro. Penso tratar-se de um assunto tão tabu quanto cotidiano, mas o que realmente me puxou para esta leitura foi o tema coadjuvante: depressão.

O título já entrega o teor da estória, narrada pela personagem principal, uma mulher de 30 anos, jornalista, casada com um marido amoroso e bem-sucedido, e com filhos, aparentemente todos felizes e sorridentes, prontos a posar para capas de revistas da vida perfeita. No entanto, Linda (a protagonista), em algum momento, passa a sentir-se vazia e triste com seu cotidiano. Tudo começa quando, ao fazer uma entrevista, o entrevistado lhe diz que “não tem o menor interesse em ser feliz, pois prefere viver apaixonado, mesmo sabendo que é um perigo, já que a paixão insere milhões de incertezas”. A narrativa segue mostrando o quanto questionar-se pode alavancar abismos – foi aí que eu precisei seguir leitura.

Ao contagiar-se com a ideia e energia do tal entrevistado, Linda não encontra mais paz nos seus dias e, apesar de saber-se bem casada e tendo a vida que tantos pensam em construir, abre-se nela uma insatisfação não direcionada. Com as noites cada vez mais mal dormidas, passa a indagar-se sobre uma possível depressão. A simples ideia a apavora, pois de alguma forma ela pensava que uma amiga que havia tido “a doença”, e só melhorado com ajuda de remédios, era quase um ser diferenciado por isso.

Particularmente, amei o Paulo por ter abordado o assunto exatamente como é, sem exageros ou diminutivos desnecessários e, três vezes mais quando, um pouco à frente na estória, Linda reencontra um antigo namorado de colégio e, numa espécie de impulso inconsciente, parece reapaixonar-se pelo moço, político de sucesso e também casado. A partir daí, a estória se desenrola num universo muito comum, o que, aos meus olhos, torna tudo mais interessante. Linda, ainda morrendo de medo de estar “depressiva”, procura todo tipo de possibilidade alternativa como motivo para seu vazio existencial. Tudo para não procurar ajuda psiquiátrica. Imagine se ela, sempre tão correta, estaria agora desequilibrada!!??

O tal reencontro não tem o desfecho que Linda espera, o que lhe dá um arranhão na vaidade, e transforma a própria vida em uma espiral. É quando percebo que Linda não faz nada diferente do que vemos todo o tempo na vida real, dispersando nossas questões existenciais no outro. Escolhendo um “outro” como alvo para ativar nossa endorfina ou tão somente preencher um espaço nosso, interno. Possível? Improvável…

Segue-se uma série de acontecimentos e diálogos – alguns, tão fantasiosos quanto bonitos – acerca de ciúme, traição e casamento aberto. Uma leitura rápida, que suscitou em mim dragões adormecidos, de valores, posturas pessoais e ao mesmo tempo um déjà vu, uma sensação espaçosa de que, no fim das contas e cada vez mais claramente, tratamos pessoas como “remédios” para nossas dores. Procurando no instinto primitivo – vulgo, tesão de momento –  uma distração, um anestésico, uma fuga…melhor perdermo-nos no outro, ou nos sentimentos alterados que nos despertam, do que buscar, no autoconhecimento, razão e amortecimento para nossas insatisfações.

Ao fim do livro, nenhuma surpresa incrível nos aguarda. É quase previsível, mas vou salientar que, independente de gostar ou não do autor, a estória perpassa assuntos, vivências e pensamentos muito próximos a todos nós, de um jeito ou de outro…

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