A benção e a falta de Pai

“Posso escrever os versos mais tristes esta noite.”

– Pablo Neruda –

O tempo não para, já dizia Cazuza. No calendário do consumo e das datas comerciais, alardeia-se novamente: é dia dos Pais! E, como o calendário, meus pensamentos também se repetem, ainda que o olhar mude aos poucos. Pego-me olhando fotos de crianças na escola, professoras elaborando festas para os pais, que a maioria dos pequenos já não têm [muitos nunca tiveram]. Olho as fotos tristes, o olhar vazio de crianças no meio do caminho… Pai é uma figura quase mágica, tipo Papai Noel, que tantos infantes não conhecerão, porque foram expostos desde sempre à realidade simples e cruel: pai é esse alguém que só existe para o outro.

Pode parecer cruel, mas é apenas a realidade da imensa maioria das crianças brasileiras. Enfim… vamos voltar ao homenageado do dia. PAI, essa figura rodeada de conflitos, imaginação, exemplos. Para alguns, é o melhor amigo, para outros, apenas o progenitor. Pouca diferença faz quando o tempo passa dentro de nós e, obviamente, vai mudando nossos pais. O pai da criança é cheio de coragem, orgulho, força…é aquele cuja voz ansiamos para nos parabenizar, colocar em cima dos ombros e sair pelos parques da vida. O pai do adulto também.

É, meu querido leitor… Quem tem pai próximo, presente, pode deixar de notar pequenas notas na voz dessa figura, pequenos brilhos nos olhos que acompanham uma simples apresentação. Confesso que sempre romanceei  essa figura. Até hoje me encanta a voz orgulhosa e o brilho nos olhos de meu pai, quando apresenta a amigos o filhão ou a filha mais nova. Puro orgulho. Satisfação para mim, que sempre desejei mais do que posses. É a garantia de ser motivo de orgulho, de ter um motivo a mais para seguir vivendo essa vida estranha.

Até que, um dia, o tempo passa e a vida vira a curva. Para os que têm a benção de ter pai e ver que o tempo passou nele também. Assistir o pai herói ansiar pela poltrona de descanso. Arrumar a casa para que nada fique na frente de seus passos, para evitar quedas. Percebemos que envelhecer é andar de mãos dadas com objetos, é subir escadas, mesmo sem degraus [cansaço].

Feliz do filho que pode cuidar de seus pais e acompanhá-los pelo corredor da vida. Dar as mãos e andar abraçado, com quem tantas vezes o carregou no colo. Feliz do filho que se dispõe a abrir espaço em sua agenda para olhar mais de perto o seu futuro e fazer as pazes com o passado, nos olhos vividos de seu pai. Acredito que somos filhos, humanos melhores, quando a vida nos dá oportunidade de cuidar do nosso berço.

Bendito o filho que almeja ser no dia a dia, na alegria ou na tristeza, no corredor da vida fora do comércio, o presente de seu pai.

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