Liberdade: realidade ou utopia?

“Acaso é este encontro
entre o tempo e o espaço
mais do que um sonho que eu conto
ou mais um poema que eu faço?”

– Paulo Leminski –

Sejam revogadas todas as disposições em contrário, passo a crer que sou um espírito livre. Livre para viver ou me esconder eternamente [seja lá quanto tempo for isso], para bater com a cara e o corpo nos muros da vida, para querer [quem sabe até fazer] esbofetear, incessantemente, os bossais de plantão, prontos a me apontar dedos de repreensão e olhares cheios de julgamentos torpes. Livre…que prepotência! Fosse mesmo livre, não existiriam essas interrogações proliferantes no meu parco juízo. Ir ou deixar-me ficar…tanto faria se houvesse liberdade, mas os grilhões da mente já se instalaram pungentes e maciços, desde o tempo do berço.

Estilhaço-me todas as vezes que meus exageros tomam conta, e dane-se se me fazem feliz, posto que o chicote do pretenso perfeccionismo põe-se a serviço do senso crítico e inútil das vozes que me habitam.

Muita tese no assunto, somos livres, escravos apenas de nós mesmos, de trabalhos, do dinheiro, dos juízes de valor [sejam externos ou aqueles que já passaram a habitar pensamentos escondidos], das relações sociais, das tarefas e de sabe-se lá mais o que pudermos inventar para distrair-nos de nós. Quantos de nós são capazes de tolerar por mais de um ou dois dias a própria companhia, sem se queixar de tédio, tristeza ou depressão? Quantos de nós conseguem, de fato, liberar-se das máscaras sociais no dia a dia sem sucumbir às culpas internas?

Sim, sou livre. Livre para pagar impostos, para ser fiel ao meu parceiro [ainda que ele me traia com a torcida do Barcelona], leal a minha equipe de trabalho, aos amigos que falam de mim pelas costas, enquanto me sorriem sorrisos impostos pela etiqueta da educação [educação??]. Sou livre para calar minhas dores e derrotas, já que não interessam ao mundo, e para alardear fotos bonitas de momentos esparsos. Livre para fazer uso de antidepressivos, na tentativa desesperada de acompanhar os fingimentos necessários, sem me quebrar inteira. Livre para esconder meus cacos embaixo do armário e me vestir de alegria para ser aceita. Por quem? Pra quê? Viram? Lá vêm as interrogações a tirar meu sossego, arrastar a pseudo-sobriedade que me imponho, apesar da vontade insana de deixar rolar.

Pode ser simples autodestruição, pode ser que não. Pode ser apenas uma necessidade interna de ser a pessoa “certinha” que não cabe nos meus sonhos, nem nos dias alegres. É apenas um cabo de guerra incessante do ego com as obrigações da vida.

Obrigação não rima com liberdade, mas essa, meus amados leitores, é outra conversa…

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