Boa Noite a Todos

Agora que o dia me deixou exausto
Deve o meu anseio mais fausto
Receber amável a noite estrelada
Como se fosse uma criança cansada.

– Herman Hesse –

Parece que foi ontem [e talvez realmente tenha sido]… eu, mulher-menina, curtindo dias, vivendo acasos, romances trocados, solidão como alento, sorrisos largos… choro intenso. Lembro que pensava estar vivendo [maldito gerúndio!], quando não estava nem vendo… Foram dez, quinze anos que se passaram num sopro. Juro que não percebi! Era ocupada demais para notar qualquer coisa, qualquer vida, qualquer… passando os anos ali, ensimesmada na importância do cargo no trabalho, na esperança do elogio do chefe, do entendimento dos coleguinhas de labuta, acreditando na ideologia da profissão que dignifica, do conjunto que soma, no crescimento do todo… tolices, segundo dizem alguns incrédulos, ideologia de gente nova, dizem outro… a verdade? Nunca encontrei, mas lembro que me entregava ao turbilhão de necessidades externas a mim, não em busca do vil metal [escasso quando comparado às responsabilidades] e sim em busca do olhar humano que validasse meu empenho. Cotidianos…

Até que, um dia, acordei ali, no fim da escada. Sem entender nada e completamente dolorida. Que confusão! Sequer sabia ao certo onde estava ou que fazia lá, naquele momento… encurvada, semi-nua, vergonha desnuda e desencontrada. Escada danada, aquela! Misturou, dentro de mim, o mundo já caótico, tornando-o ainda mais distante, medonho. Acordei sem saber o que fazer e ri, ri muito, da minha dignidade perdida, do meu amor mudo, da minha vergonha maldita.

Muito tempo depois, entendi que algo meu morreu ali. Nunca mais fui a mesma, nunca mais me reencontrei e ainda procuro afinidade e reconhecimento naquela estranha que vejo refletida no espelho.

Vez em quando, volto a me encontrar em sonhos, ou no discurso bobo de alguém do passado… acho graça. Há quem diga saudades de quem eu fui… eu não. Trago é curiosidade sobre esta que vejo todo dia e que, quase sempre, é minha única companhia… sigo. Olho em frente e tento fazer pouco do meu medo de cair… de novo.

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