Até quando?

“Até quando esperar,

 a plebe ajoelhar,

esperando a ajuda,

do divino deus?”

– Plebe Rude –

No escuro da noite que finalmente me aconchega, libertam-se com força e voz, todos os questionamentos corriqueiros engolidos ao longo dos dias, das horas, da vida… Até quando? É certo que não sei. Provavelmente até que eu pare de respirar ou me perca completamente de mim, o que vier primeiro.

São tempos de dúvidas massacradas e de intolerâncias vorazes…Dia desses quase fui agredida por um taxista, porque estava conversando sobre política com meu partner. Sem dó, piedade ou vestígio de educação, o homem se meteu na conversa e transformou-a em monólogo feito aos berros. Que dizer? Como o trajeto era pequeno, tentei contar a ele que não discuto política, religião ou futebol, mas o pobrezinho nem isso conseguiu ouvir e seguiu seus 5 minutos de invasão. Lamentável… Mas, diante de tantas outras coisas quase insanas, esse episódio vira detalhe.

Ainda outro dia, conversando com uma amiga, demonstrei certa empatia com mulheres que sofrem violências em casa e não denunciam. Não se trata apenas de agressão física, mas da agressão moral, que retira da pessoa, a estima, a dignidade e, por vezes, a noção de realidade. É um fato que mulheres são criadas para cuidar, seja dos irmãos, das bonecas, da casa ou dos filhos. Mulheres são habituadas a tolerar mais dor, por conta de cólicas, partos ou por terem (algumas) permissão para demonstrar mais emoção. Partindo dessa premissa, parece quase “natural” que tantas mulheres comecem a defender seus agressores com desculpas como o estresse no trabalho, o nervosismo pelas finanças, o excesso de cansaço, alcóol, ou sabe-se lá que outras desculpas…Preferem vestir-se mais para cobrir os hematomas, escondem-se atrás de sorrisos forçados, alardeiam o quanto o agressor é bom em outras coisas, o quanto as ama e por isso sente-se a vontade para depositar nelas toda sua frustração transformada em raiva. Uma ilustre desconhecida ouvia nossa conversa e, quando minha amiga se afastou, aproximou-se de mim agradecendo. Acreditando que eu faria o mesmo, caso fosse violentada por alguém muito próximo. Chorei. Me senti agredida e agressora durante o desabafo dela. Não sabia como ajudá-la, mas ofereci meu abraço.

“Pequenas” coisas que vão dilacerando a minha fé no humano. Quando amamos e não há retribuição, quanto tempo levamos pra enxergar? Quanto tempo duram as desculpas? Quanto tempo aguentamos as dores, a secura, o desaforo? Quanto haverá de resiliência numa mulher que acredita em “amor incondicional”? Quanto tempo perdura uma ilusão?

As interrogações da noite, passeiam entre a total falta de tolerância e a tolerância desmedida…Faço uma prece silenciosa, pela paz de espírito de todos nós. Ao mesmo tempo, duvido. Já não sei se há tempo para haver espírito onde o humano se perdeu.

O excesso, parece cada vez mais limitante. As vozes, cada vez mais doloridas. As dores, habitam entre gritos e silêncios e já não sei se alguns de nós conhecem o que chamam de amor…

Cláudia Costa

*Este post é parte integrante do projeto Caderno de Notas – Quarta Edição, do qual participam as autoras Aurea Cristina, Claudia Costa, Fernanda Farturetto, Lunna Guedes, Maria CininhaMariana Gouveia e Tatiana Kielbeman

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Um comentário em “Até quando?

  1. Amiga amada, infelizmente as coisas parecem mesmo ao contrário diante de nossos olhos… e é uma pena que não seja sonho. Ao contrário, tudo se tornou bem mais real do que sequer poderíamos imaginar.
    Talvez a única solução seja tentar manter a sanidade em meio a tudo isso e, quem sabe, buscar um pouco de paz – seja lá qual for o significado de tal palavra.
    Beijo grande, com carinho sempre!

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