Desamor Infante

“A arte alimenta-se de ingenuidades,

de imaginações infantis

que ultrapassam os limites do conhecimento;

é aí que se encontra o seu reino.

Toda a ciência do mundo

não seria capaz de penetrá-lo.”

Lionello Venturi

crianças armadas

Ainda na infância, aprendi o desamor. Se você imagina que aprendi a não amar, imagina errado. O  desamor, me mostrou desde cedo, sua melhor amiga, a carência. Podem imaginar que fui uma criança mal amada e também errarão. Fui a única filha planejada, a única que a mãe realmente “achou que era hora” e, isso não foi garantia de ser a filha mais querida. Disso, passei longe…

O maior aprendizado [que lembro] é que criança pode não entender os acontecimentos, mas criança SENTE os acontecimentos e, podem acreditar, SENTIR é muito mais profundo e forte que entender. Lembro de ver tons avermelhados e cinza escuros pela casa, quando meus pais não estavam bem. A agressividade tem cor, caso você não saiba.

Meus pais trabalhavam muito, passavam muito tempo fora de casa vivendo suas vidas de pessoas que precisam “ganhar o pão de cada dia” e a filha “planejada”, ficava aos cuidados da avó postiça por um tempo e depois de empregadas domésticas que, além de limpar a casa tinham que aturar a agressividade sem sentido da menininha “mimada”. Mimada? Sei lá, não tenho registro disso, mas, a julgar a adulta que me tornei, devo ter sido.

Lá pelos cinco anos´e muitas brigas depois, veio a notícia, eu teria um irmãozinho. Não lembro se gostei da surpresa, mas sei que, tempos depois, detestei perder o pouco olhar dos meus pais, para aquele ser chorão e lindo [meu irmão nasceu com a beleza clássica que me faltou. Era loirinho, branquinho e, por muito pouco, não herdou os verdes olhos lindos de meu pai.].

Começava um pesadelo novo, regado a muito barulho de choro e elogios de todos os formatos para o belo menino que roubara parte do meu palco. Nessa época, as cores das nuvens na casa, mudaram, ficaram mais coloridas. E eu, as vezes, até gostava daquele ser pequenino. Lembro também que tinha essa mania de conversar muito com os bebês que circularam pela minha vida, falava de coisas sérias, dividia meus temores e sensações, sem nunca ter uma resposta de volta. Pena que parei de conversar, depois que crescemos, provavelmente continuaria sem respostas, mas talvez criasse laços mais fortes. Vai saber…

Enfim, esse barco de memórias inventadas [ou não], ocorreu por ter visto um menino armado. Devia ter uns oito anos e me deixou chocada o tanto de frieza que li em seus olhos. Ao redor dele, não vi cores, vi medo e, no início fiquei confusa, assustada. Era uma criança! Como podia ser tão frio e maldoso? Daí lembrei de Freud, da realidade brutal dos dias e, da criança que eu fui um dia… Nem sempre cheia de amor, com muita sensação solta e sem direção alguma, isso porque tinha parque com os pais no fim de semana, tinha comida em casa e as vezes, tinha um palco pra mim.

Aquele menino armado, não tem…

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5 comentários em “Desamor Infante

  1. Isso é para refletir.
    O que estamos fazendo com nossas crianças? E que adulto estamos alimentando para nosso futuro?
    Poderia escrever duas alternativas e unir as histórias do menino que nada teve e foi abandonado ainda bebê e hoje é editor de um jornal importante, acomoda-se e abre-me um sorriso na mesa do lado ao perceber que olho insistentemente para ele.
    E do menino que teve tudo que o dinheiro pode dar e hoje é manchete do jornal matutino e foi preso com drogas na porta de uma escola.
    Há algumas respostas que não saberemos dar.

    Que bom que diante de tudo e de tanto, essa adulta linda que aí se faz, consegue balançar meu coração em um carinho enorme.

    beijo meu

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    1. Ainda bem que há também, esses, que nada tiveram e fizeram de si mesmos, pessoas bacanas. É uma riqueza interior que desconheço, mas admiro muito.
      Obrigada pela sua interação enriquecedora.

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  2. Cláudia, eu leio suas postagens e sou marcado por coisas diferentes do tipo “a agressividade tem cor” . Aí eu volto a ser o eu-criança e me pergunto se a menina Cláudia está certa. Espero “rodar”meu banco de dados e comprovo que está correta e tem mais, todas as situações perceptíveis pelas crianças tem cor. O azul lembra uma calmaria. O verde lembra animação e alegria de uma passada no parque infantil ou num piquenique. O preto é algo respeitoso, social. O branco é tão puro quanto o vestido de primeira comunhão ou casamento. E por aí vai…
    Interessante que ao ler seu post eu consigo me lembrar de um monte de coisas marcantes na minha infância e mal comparando, agora por exemplo, recebo a notícia de um tsunami no Chile com a maior naturalidade. Quando tinha meus 5 ou 6 anos, mesmo não comentando com ninguém, me SENTIRIA muito incomodado com isso. O próprio nome tsunami me faria SENTIR que era algo de poucos amigos.
    A gente passa uma vida e não traz para ela e experiência de ter sido criança e se traz a experiência não a usa.
    Veja que graça esse trecho da sua postagem:

    ” Lembro também que tinha essa mania de conversar muito com os bebês que circularam pela minha vida, falava de coisas sérias, dividia meus temores e sensações, sem nunca ter uma resposta de volta. Pena que parei de conversar, depois que crescemos, provavelmente continuaria sem respostas, mas talvez criasse laços mais fortes. Vai saber…”.

    É fundamental voltarmos a conversar com as crianças. Talvez consigamos melhorar a nossa sensibilidade para SENTIR a vida.

    Um beijo,
    Manô

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    1. Você é um leitor muito especial, Manô.
      Tem esse dom de pegar “o espírito do texto” e transformá-lo, enriquecê-lo. Um leitor desses, que todo escritor deseja para dar as mãos, ouvir os causos, trocar vida e SENTIR as cores que o dia lhe traz. Na verdade, ainda converso com crianças e vejo que me expressei muito mal nesse trecho, já que o que queria dizer é que não consigo mais conversar com as crianças que cresceram [os adultos de hoje]. Conversava com bebês, depois evolui e levei minhas conversas para as crianças que já respondiam. A curiosidade foi maior que a timidez, precisava saber se os sentimentos que elas percebiam também tinham cores. Até hoje tudo a minha volta tem cor, talvez por isso, eu goste tanto das minhas redomas. Tsunamis, manifestações, violências de todo tipo, fazem-me pequena. Percebo o tempo todo, o quanto sou grão de areia, nesse universo gigante, mas sei também que, junto com tantos outros grãos, sou parte do “chão do mundo”. E sigo aprendendo.
      Obrigada de coração, pela troca rica e colorida que sempre me dá.
      Beijo,

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  3. Perfeita e muito pertinente a sua reflexão, amiga… Muitas vezes, permanecemos ensimesmados em nossos universos particulares, sem direcionar a visão ao outro que está ao lado – e quase sempre não tem, mesmo, um palco para atuar, nem para ser o que é.

    Não é à toa que assistimos à violência em todos os cantos, desde muito cedo, tornando-se lugar comum na sociedade.. Uma pena.

    Muito importante o assunto que você nos traz – e interessante desfrutar da sua perspectiva.

    Beijo grande!

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