Teatro do Cotidiano 

Lúcida?
Lúdica?

Louca?

Dúvidas demais.

Entre sanidades e doideiras,

Correrias,

Besteiras,

Atalhos, 

Enganos.

Acertos,

Desencontros,

Vaidades tão vazias quanto fúteis,

Desacertos.

Respiro…

A inspiração não vem…

Saiu apressada

Atrás do próximo trem.

Lucidez?

Coerência?

Quem tem?

Ah… são dúvidas demais

Respostas de talvez

Que só aumentam lacunas.

Perguntas haverão

Até que a respiração

canse

e dê adeus.

Fútil e vaidosa,

Louca ou lúcida demais?

Entre teorias e práticas 

[Ilusões]

Viver é um não se afogar

em multidões.

Barulho demais e nenhuma informação

[Fantoches]

Pura estampa, 

holofote e glitter.

Pra quê?

Pra quem?

Perguntas sem resposta.

Cães apenas ladram

enquanto a caravana dança.

Loucos ou ocos

[Quem sabe?]

– Cláudia Costa – Teatro do Cotidiano

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Esboços para um caderno, e nada mais

No fundo, pessoas são só pessoas.
Objetos são só objetos.
Mas ambos acumulam pós.
Tenho tentado:
Exercícios para sentir-se vivo.
Cometo atos, para suportar não ter ido.
Cometo atos para suportar o vivido.
[Cometo atos para suportar o não vivido. O não vivido, vívido como se.]
É o vento o medo?
O vento é quem muda os pós de lugar.
[Fico imóvel. Minha arma é a imobilidade.]
Fico imóvel o quanto é possível:
ando em pequenos círculos, pequenos círculos, pequenos círculos.
Na tentativa de espirais.
[Torço para que esperes.]
[The wind in my hair,a flood through my tear.]

  • Thamar de Araújo –

Paraloka

amor-e-neurose

Ando apaixonada pelo meu silêncio. Desliguei a TV e o rádio para diminuir os sons estridentes a minha volta e com isso silenciei também um tanto do medo que vinha me consumindo. Diminuí o passo e segui na contramão do mundo.

O tempo me permitiu o cansaço das tempestades internas [tantas] e, num rompante abismal de irresponsabilidade, me deixei ficar. Exausta.

Retomei o fôlego, mas a energia não voltou com tanta força quanto antes. Houveram perdas no caminho [quem não as têm?], choros convulsivos, enxaquecas, dores aos montes e no meio de todo furacão, essa nota de silêncio…Portas fechadas, quase segura, reinventei o mundo. Agora, por hora, sou chuva e silêncio. Observo o tempo, pessoas passando com suas águas, sem a menor noção de seus maremotos diários. Agora degusto cafés, aprecio gatos e busco, incansavelmente, compreender diferenças e praticar o desapego [isso sim é difícil]. Vivo [como todo mundo] na corda bamba entre o politicamente correto-social e o correto dentro de mim, da verdade abraçada pela minha alma.

Estou longe de ser quem desejei e no entanto, gosto muito dessa alma lenta que tomou conta de mim. Os pensamentos ainda são diversos e a cabeça raramente silencia, mas grande parte do tempo, conseguimos algum entendimento. Há tempo, há esperança e possibilidade. Respiro, aguardo, anseio…

 

 

Metralhadoras

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Cobranças me despertam

[toda noite]

no sonho, sonho guerras, mutações, gritos e estrondos

como canção de ninar

na real não há afeto,

sobra sexo, selvageria…

na euforia, os tiros confundem-se com adrenalina.

êxtase gratuito, urgência primitiva.

corpos malhados, suados de medo [reprimido]

violações passadas entre gerações

[tão feio, doloroso e comum…]

O silêncio cala o medo disfarçado de vergonha

pelo que não sou, pelo que não consegui

[por tudo que nunca entendi…]

Esquecidos

esquecidos

Produtos do meio [que não há]

filhos do abandono

corpos gerados do caos

Mentes efervescentes

Vagantes…

Por vezes vazias, por vezes mergulhadas em decisões confusas

Abismos desencontrados

entre passado e presente

Soluções forjadas

coerências fabricadas

[?por quem?]

Seres rejeitados, mal formados,

algozes de si,

ferindo cruelmente os…

vencedores [?]

 

 

 

Quero Ser

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Como a lua cheia que encanta
Como a cerveja que te mata a sede por prazer
Como o dinheiro que te sacia necessidades
Como a gueixa que te visita em sonhos impublicáveis
 
Quero ser pra ti
 
O silêncio que diz o necessário
A companheira escolhida pra vida
A amiga confidente das horas recolhidas
Teu suporte, teu norte.
 
Quero ser
 
Aquela de quem tens saudade
A voz cuja suavidade tem o dom de te curar a alma
Amenizar feridas
 
Quero ser
 
O ópio
A comida
A bebida
O sonho
 
Quero ser…
– Pra ti –
Simples
Realidade.

Escuros da Ribalta

escurodaribalta

Quando cai o pano
Alguns de nós, humanos
Ficamos perdidos
Numa espécie de limbo
Numa certa solidão cortante
Sem os holofotes do espetáculo
O forte, fica fraco
O palhaço chora suas dores
O risonho fica sério.
 
É quase um mistério
Esse, da vida que alegra
Agita
Finge…
Se apega.
 
E termina
Todo dia
Quando as luzes
Escurecem
E o pano se fecha.
 
Sem plateia, o espetáculo perde o sentido
– Será ? –

Des – Culpas

“A alegria é uma família de olhos,
  ossos e dentadas, que falam às gargalhadas
e chamam toda gente de irmãos,
pais e parentada.”

– Kelly Shimohiro –

sol sem sombra

Culpas, medos e defesas

vejo-os todos insuflados por aí.

Aqui, encheram-me… olhos, boca e corpo

de novo e novamente.

Virei metade da vida e ainda não sei lidar comigo:

fogo, voz, hormônios em desalinho, quietudes…

Sou outra e ainda a mesma, além de tantas mais, refletidas em espelhos

diversos…

Medos, culpas e defesas…

me comem e consomem devagar.

Quando não as minhas, as do meu irmão

defendido, desculpando-se pelo dito, pelo feito

mal feito, mal jeito, sorrio.

Desnecessário armar-se comigo

Prefiro nudez e te servir de abrigo,

não te acuso! Sem desculpas para culpas esculpidas na escuridão

Prefiro amar-te com diferenças, abismos e coração.

Ouso defender-te dos medos, das neuras, do desamor…

até sobrar apenas você… eu…

e afeto.

Finados… finalmente mortos!?

“Há tanta gente morrendo a cada dia, sem partir.
Esta saudade do tamanho do infinito caindo sobre nós.
Esta lembrança dos que já foram para a eternidade.
Meu Deus!
Que ausência tão cheia de presença!
Que morte tão cheia de esperança e de vida!”

– Padre Juca –

Dia de Finados… mais um de nossos feriados cristãos. Esse tem por objetivo celebrar, em missa e voz, os amigos-irmãos que já partiram do nosso cotidiano.

Particularmente, um dia como outro qualquer, mas que insere em si uma alforria social para que possamos chorar, relembrar e reviver nossos “mortos”. Sim, mortos entre aspas, muitas aspas nessa palavra, por sinal. Afinal, quantos de nós não conhecem um, dois ou meia dúzia de zumbis que ainda nos circundam?

A palavra “mortos” entre aspas, neste texto, também é usada pela memória, pela lembrança que nos mantém vivos nos corações daqueles que tocamos em vida. Juro para vocês que eu conheço “gente morta” muito mais viva do que alguns “vivos”. Ainda há pouco, li um trecho de desabafo em que uma alma querida se dizia feliz, porque amanhã poderá se lembrar de um ente amado em voz alta… seja para lamentar os abraços não mais possíveis aos nossos olhos, seja para rememorar os feitos da pessoa que se foi, seu abrigo, seu amor… Confesso que o desabafo me doeu.

Sim, também trago minhas lembranças… boas e más, pois são parte do que os “mortos”, que me tocaram, deixaram em mim. Não, você não entendeu errado: eu tenho lembranças ruins de alguns “mortos”, sim! Jamais consegui entender essa coisa de fazer de um morto uma espécie de santo. Fulano era um traste, em vida todos reclamavam dele, viviam cobrando posturas diferentes e blá-blá-blás cotidianos, até que “bateu as botas” e instantaneamente se tornou o ser mais amado e angelical da família. Não cola, não cabe, não vira. Hipocrisia deveria ser proibida por lei no campo das emoções, mas isso já é outro papo.

Deixando de lado a beatificação dos simples mortais como nós, sigo  aguardando o dia dos vivos. É isso mesmo: dia dos vivos! Claro que não me refiro aos tais zumbis, que se alienaram dentro da rotina trabalhadora-consumista dos dias, mas dos vivos de verdade. Esses, que ainda se lembram de incentivar, sorrir, cumprimentar, olhar nos olhos, enfim… que se recordam dos seus vivos. Espero ansiosamente o dia em que as pessoas hão de se programar para serem mais afáveis com o seu entorno, com o coleguinha ao lado e mais, muito mais, com aqueles que lhes aturam no dia a dia. Não somos santos! Nenhum de nós é e estamos tranquilos com isso… logo, para que aguardar o Dia de Finados para cuidar, chorar, lembrar, dizer que se ama muito alguém? É preciso mesmo esperar essa ausência constante para valorizar o outro em voz alta?

Que tal orarmos, dizer que amamos e o quanto estimamos nossos amigos-entes-irmãos hoje, também? Que tal festejarmos e cultuarmos nosso abrigo possível? Fazer jus à vida, dando um abraço mais demorado naquele irmão chato [mas que você não consegue se imaginar sem], beijar as mãos de seus pais até se cansar, mostrar que ama quem você ama? Que tal celebrar com o padeiro, que te dá “o pão de cada dia”, o BOM DIA que vocês terão? Que tal chorar de emoção e saudade antecipada, ao abraçar carinhosamente seu pai, sua mãe, seu filho-tio-sobrinho-cônjuge-afilhado-amigo?

Gostaria que esse Dia de Finados fosse comemorado com alegria. Aquela genuína, forte, vibrante… que contagiasse a todos a nossa volta. Gostaria de ver pessoas com sorrisos de gratidão estampados no rosto, por terem tido a bênção de conviver com aqueles que partiram. Que fosse uma data regada a lágrimas de saudade e carinho por todos os que foram e ainda são muito vivos em nós… mas também pelos que aqui estão, tornando nossa jornada cotidiana uma caminhada de aprendizado, afeto, tolerância e evolução.

Podem dizer que o dia é de Finados, mas eu convido você, que me lê, a dançar o ritmo do afeto entre seus vivos, abençoando com sua atitude humana, educada e sensível a todos os seus “mortos”. Fica o convite, caro leitor, para celebrarmos em grande estilo a chuva, a renovação, a semente, a emoção e a vida… sua, minha e de quem vier.

Pedir Amor, mata

marina-carlos-ruiz-

Se eu tiver que te pedir qualquer manifestação de afeto ou carinho,
vou me iludir em ondas tão gigantes que me afogarão pelo que não tenho.
Já dizia Beth Carvalho: “Carinho não se pede por favor.”
Porque ao receber migalha, faço-me pedinte
e interiorizo o pseudo-afeto mecânico-fake dos dias.
E, quando eu acordar,
terei murchado e morrido pelo amor
que não me dei.